CARTA A UM PAI E A UMA MÃE

(Em memória de Rafael Grosso de Oliveira Fernandes, por ocasião do seu passamento - 09.05.2017)

O que dizer quando não se tem o que dizer?
Com essa pergunta em mente, resolvi escrever a vocês (nós) que perderam um filho querido e amado de uma forma absurda. Mas, absurda é a vida e suas fatalidades. Absurda é a existência que insiste em ser quando não há possibilidades para ser. Absurda é a finalização da existência, num último ato chamado convencionalmente de morte.
Ela é a presença mais viva e insistente que visita o cotidiano de todos os seres vivos. Julgamo-nos especiais dentro do cosmos e, talvez por esse motivo, compreendamos a morte com mais tragicidade e angústia, embora ela esteja se manifestando de forma avassaladora em todos os outros seres vivos, igualmente.
De fato, coisas acontecem com os seres vivos sem as mínimas explicações. Mas, também, pra quê explicações se as coisas já aconteceram? Quisera eu ser uma pedra inanimada. Diante do fatídico momento em que o facão amolado ceifa o caule, fazendo jorrar a seiva vermelha, a garganta resseca, a lágrima é vertida e a saudade - vontade de estar perto, se longe, e mais perto se perto, como nos diria o saudoso Vinícius de Moraes - é violentada pelo acaso, pelo infortúnio, pelo que pessoa alguma espera.
O cotidiano se rompe, desfazendo tudo o que é concreto. O perfume das flores, fincadas na água de um jarro, dá lugar a um odor incompreensível. O belo deixa o palco abrindo as cortinas para o horrendo. Todas as cores ficam opacas e sem brilho. Faltam luzes e os pássaros cessam seus cantos. Tudo fica desinteressante. mesmo o sorriso da criança não provoca o encantamento. O sopro da vida é tão passageiro quanto fugaz e as ondas da ressaca inundam o arquipélago do contentamento.
Tudo se esvai, como águas nas conchas das mãos. Mesmo o grito por Deus e por sua benevolência se mistura a um outro grito dantes ecoado: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" A fé não tem lugar e a vontade do Soberano é posta em xeque. Ele entende. Mais do que isso, Ele compreende e não julga. Sofre também a dor da perda - queixa muito natural para quem experimentou e experimenta a agonia abissal da morte prematura. Os por quês continuam a insistir pelas respostas. Elas se recusam a sair dos claustros profundos das cavernas pluviais. Instaura-se um vazio cheio de palavras silenciadas que jamais serão pronunciadas, pois no fundo de toda alma aterrada pelo infortúnio, não há o que dizer.
Por isso, querido pai e querida mãe, recolho-me em silêncio para sentir o que vocês estão sentindo, embora a dor lancinante não seja, nem de perto, por mim sentida. Não há canções, poesias e preces suficientes que possam ajudar nessa hora.
É hora de abraçar quem fica e chorar as dores das dores...
É hora de olhar a lua cheia. Ela brilha entre nuvens densas e turvas. Havemos de recorrer a um vestígio de esperança...

Comentários

Postagens mais visitadas