TODA AUTORIDADE É CONSTITUÍDA POR DEUS?


A temática da autoridade está presente em toda a Bíblia. De fato, no que concerne à nossa percepção de Deus na história humana, não podemos deixar de refletir sobre o significado da autoridade na conjuntura das relações sócio-políticas e religiosas.
Nosso objetivo neste sucinto texto é o de refletir criticamente o sentido de autoridade numa perspectiva teológico-pastoral, embora outros elementos sociológicos se farão presentes na pauta de debates. Partimos do pressuposto de que Deus é o criador e o sustentador da vida humana. É a partir dessa ação criadora-criativa de Deus e da forma como Ele mesmo cuida do mundo, que averiguamos o princípio de autoridade se evidenciando de forma prima. Acontece que, por uma razão óbvia, os fundamentos dessa criação ocorreram na coletividade das ações da triunidade de Deus. Isso fica evidente na expressão: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Conforme Gênesis 1.26). O plural presente na expressão demonstra coletividade e movimento democrático. Na sua essência, Deus é democrático. Portanto, não se trata da evidência de um Deus totalitário e ditador, mas de um Deus que requer a participação de seus pares na criação de algo ou alguma coisa. Inclusive, Leonardo Boff afirma que Deus é uma comunidade. Em suas palavras:
Pai, Filho e Espírito Santo vivem em comunidade por causa da comunhão. A comunhão é expressão do amor e da vida. Vida e amor, por sua própria natureza, são dinâmicas e transbordantes. Sob o nome de Deus podemos entender, portanto, sempre a Triunidade, a Trindade como união do Pai, do Filho e do Espírito Santo.[1]

Toda essa dinâmica da Triunidade – democracia e comunhão –, que não será aqui problematizada, se amplia no ato de criação do ser humano. Deus confere domínio ou autoridade a este sobre todos os seres vivos. Ora, o ser humano é, dentre toda a criação, aquele que é apto a transformar a natureza, numa dimensão cuidadora e cuidadosa, sem perder a finalidade de salvaguardar a sua vida e sobrevivência, garantindo o bem estar de tudo e todos.[2]
Lembremo-nos também que toda a criativa criação de Deus se manifesta de forma extremamente diversa. Tudo é radicalmente diferente. Coisa alguma pode ser considerada igual. Uma das mais belas expressões dessa expansão criativa de Deus está na possibilidade de todas as coisas serem diferentes, mesmo aquilo que é similar. O Salmo 104, em sua expressão orante afirma: “Que variedade Senhor nas tuas obras...”. Salmo 104.24. Ora, é no entrechoque entre as diferenças que as possibilidades aparecem, dando sentido às vivências entre os distintos seres vivos. Sendo assim, a ideia de igualdade precisa ser questionada. O fundamental não é a igualdade, mas sim a diversidade. O conjunto das relações entre os distintos seres vivos precisa se configurar como a união das diversidades num todo em que todos partilham suas expectativas e anseios visando o bem comum.
Nesse quadro de multiplicidades e de possibilidades de significados, torna-se extremamente necessário a organização e conscientização do distinto e diverso para a evidenciação do bem comum. É justamente nesse contexto que surge a necessidade da autoridade.

O princípio da autoridade
Em nossa concepção, o princípio da autoridade é de extrema valia para o desenvolvimento da vida humana. Desde que o ser humano precisou se organizar em nichos culturais e sociais, paralelamente surgiu a necessidade de instituição deste ou daquele líder, com vias ao bem comum do todo social. Ora, num princípio, a evidenciação do líder se dava mediante o carisma dentro do grupo. Assim, o mais forte ou mais ativo e esperto era o que se exaltava. Posteriormente, surgiram os líderes que seguiam uma determinada linhagem familiar e, por fim, os líderes burocráticos. Essas terminologias estão presentes no pensamento sociológico de Max Weber e se qualificam como os tipos puros de liderança dentro do tecido social. Então, nós não podemos questionar a necessidade de líderes para a organização do grupo visando o bem estar comum. Todavia, também não podemos deixar de questionar as psicopatologias que decorrem desses tipos puros, a saber, a ditadura ou o totalitarismo. Inclusive, ao longo da história humana, o surgimento da teocracia foi uma forma de expressão totalitária, empregada com a finalidade de dominar o outro em nome de Deus.
Ora, em cerca de 1000 anos – do século IV ao século XIV, a cristandade – configuração política da Igreja – dominou consideravelmente o mundo. A Igreja era o meio de graça, segundo a qual as pessoas se achegavam a Deus. Essa estrutura teocrática foi duramente questionada pelos reformadores a ponto de provocar o protesto, alcunhado posteriormente de Reforma. Na concepção dos reformadores, a teocracia estabelecida não representava o anseio das múltiplas gentes. Era preciso uma nova representação da autoridade.
Assim, o movimento de protesto alinhado ao renascimento das obras gregas e os fundamentos filosóficos – que se ampliavam para além da interpretação da Igreja – bem como o desenvolvimento da imprensa, fomentaram ainda mais toda possibilidade de discussões em todos os campos reflexivos. A Igreja foi perdendo paulatinamente seu poder teocrático, tendo que ceder seu espaço para a ciência. O problema da teocracia refere-se ao fato da representação. Ora, como Deus não pode, Ele mesmo, dirimir sobre a vida das pessoas com vias ao bem estar social, alguém vai fazê-lo, “em seu nome”. Este alguém, em geral, se reveste de uma autoridade, seja ela clerical ou institucional, e se manifesta como o representante legal de Deus na terra. E aqui, neste ponto, reside o problema que nos interessa.
Quando um líder se reveste da autoridade de Deus, Ele tem diante de si dois caminhos: o primeiro refere-se ao caminho da legalidade com legitimidade; e o segundo, o da legalidade sem legitimidade. Um líder ascende ao poder por intermédio de uma tradição, de um carisma ou das formulações burocráticas de uma determinada instituição. Entretanto, independente do cargo exercido, a busca da legitimidade por parte do líder que exerce a função é vital. Ora, a legitimidade é o que garante a representação ao líder, em outras palavras, o povo ou as pessoas se sentem representadas nas ações daquela pessoa que exerce autoridade sobre elas. Uma autoridade sem legitimidade tende à autocracia ou ditadura e essa postura é perniciosa para os que sofrem a sua influência. Por esse motivo, embora as mazelas também presentes em sua estrutura, a democracia é a melhor forma de expressão por dar espaço para a legalidade e para a legitimidade. Logicamente, os caminhos de construção do tecido social, por intermédio da democracia são extremamente complexos e longínquos, todavia melhores do que aqueles que apontam a determinação de um sobre os outros.

A autoridade na Bíblia
Uma passagem bíblica que muito me incomoda, justamente por ser ela interpretada de forma equivocada, refere-se ao capítulo 13 de Romanos. Neste texto, o apóstolo Paulo enfatiza que toda a autoridade é constituída por Deus. Entretanto, temos aqui dois problemas complexos: o primeiro refere-se à interpretação do pensamento paulino; o segundo refere-se ao questionamento se, de fato, toda autoridade é constituída por Deus? Alinhada a estas questões, podemos perguntar: Pode ser acusado de rebelde aquele(a) que se levanta contra autoridades constituídas? Paulo se refere a todas as autoridades ou às autoridades políticas? E no caso de autoridades eclesiásticas na atualidade, devemos obedecê-las surda, cega e mudamente?
Como se percebe, essas questões são inquietantes e revelam a complexidade da temática. Nós não pretendemos dar todas as respostas às questões, mas interpretá-las à luz de outros textos que muito podem contribuir com a caminhada daqueles que anseiam a plenificação do Reino de Deus. Na tentativa de contribuir com essa reflexão, vamos tratar, primeiramente, a questão da distinção entre obediência e subserviência. Num segundo momento, vamos pensar sobre o significado do discernimento, exercício fundamental para o estabelecimento de critérios e escolhas. Na seqüencia, pensaremos a ação de Deus e a sua autoridade eivada de amor. E finalmente, pensaremos a autoridade em Jesus e tentaremos responder a questão em evidência: “toda autoridade vem de Deus?”

Distinção entre obediência e subserviência.
O tema da obediência é extremamente complexo, justamente porque nos remete às seguintes perguntas: por que obedecer? A quem obedecer? Como obedecer? Segundo a definição do dicionário, obediência significa: 1. Cumprimento da vontade alheia; 2. Submissão; 3. Preito de homenagem; 4. Domínio, autoridade; 5. Priorado, igreja, mosteiro, granja, etc, dependentes de uma ordem religiosa.
Segundo o Dicionário Enciclopédico da Bíblia, não existe um termo específico para a obediência. Existe, sim, toda uma configuração dialogal. A obediência é a resposta que o ser humano oferece a Deus que manifesta a sua vontade. Nessa perspectiva, forma o centro da expressão religiosa do povo de Deus no Antigo Testamento. O objetivo da obediência é sempre, em última instância Deus, que dá a conhecer a sua vontade de diversas maneiras. O fundamento da obediência não está firmado no reconhecimento da soberania baseado no ato da criação, mas no conceito sempre vivo da Aliança, portanto, o principio da obediência não está ligado ao temor a Deus, mas ao amor a Deus. Trata-se, portanto, da adoção da dinâmica de comunhão. (p. 1059).
Um exemplo interessante que encontramos no Antigo Testamento e muito utilizado para a reflexão sobre a obediência refere-se ao relato de Jonas. Ora, muitos criticam o fato de Jonas ter desobedecido a Deus, deixando de seguir o chamado para pregar em Nínive, fugindo para Társis. De fato, o profeta é extremamente criticado pela sua decisão e muitos afirmam que, por causa da sua desobediência, ele veio a sofrer no interior do grande peixe, tendo que se submeter ao que Deus queria que Ele fizesse.
Entretanto, o capítulo 4 do livro de mesmo nome é revelador. Nele encontramos um Jonas extremamente convicto de sua fé e que diz o porquê de não ter querido ir pregar em Nínive. No fundo, Ele sabia que Deus não é um Deus que age com vingança ou ira, mas com misericórdia e amor. Como nos narra o texto: “E orou ao Senhor e disse: Ah! Senhor! Não foi isso que eu disse, estando ainda em minha terra? Por isso, me adiantei, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e que se arrepende do mal. Peço-te, pois, ó Senhor, tira-me a vida, porque melhor me é morrer do que viver”. Jonas 4. 2-3.
Assim, vemos o profeta frustrado, pois teve que pregar 40 dias em Nínive um sermão que Deus havia lhe ordenado pregasse e que ele sabia que não se concluiria. Diante do escárnio da pregação que não encontra eco, pois há arrependimento entre o povo – inclusive jejum dos animais – e Deus resolve mudar a direção. Donde podemos concluir que a desobediência do profeta é fruto de sua convicção de quem é Deus. Jonas sabia que Deus não ia fazer o que dissera que ia fazer.
Na mesma direção, no Novo Testamento, o sentido da obediência encontra-se em ouvir a Palavra de Deus e guardá-la no coração (cf. Lucas 11.28), fazer a vontade do Pai (cf. Mateus 7.21) e observar os mandamentos (João 14. 15-21). A obediência, então, tem a ver com a abertura que o cristão dá aos impulsos do Espírito Santo em concomitância com o bem-estar do povo, e não a observância deste ou daquele princípio hermeticamente fechado por um dogma ou ditado por alguém. (p. 1060).
O exemplo do movimento kenótico salientado por Paulo é fundamental para que compreendamos profundamente o sentido da obediência, conforme Filipenses 2. 5-11. Neste texto, o apóstolo Paulo evidencia o movimento de humildade vivenciado por Jesus que não julgou como usurpação o ser igual a Deus.
O que queremos evidenciar é que a obediência não é a resposta a uma autoridade e sua palavra. Não é fruto da ditadura de determinado regime, mas o resultado de uma dimensão relacional. Assim, obedecer é fruto de uma relação de confiabilidade e não de mandos e desmandos de um líder que se acha superior aos outros. A aceitação surda, cega e muda a uma liderança, seja ela qualquer, é subserviência. E nem Deus aceita isso das pessoas. Subserviência é o que muitos líderes requerem de seus liderados. Enfim, subserviência é um perigo para as relações de poder onde o uso da autoridade se torna necessário.
Portanto, a obediência está em comum acordo com a comunhão e a dimensão de amor que nos aproxima de Deus. Já a subserviência é a obediência em seu estado patológico, doente. Não existimos para sermos dominados por este ou aquele princípio, afinal de contas somos chamados à liberdade (cf. Gálatas 5.1ss), e não à submissão embrutecida de líderes que se consideram acima das pessoas.

Discernimento da autoridade
Possuímos a potencialidade de discernir sobre todas as coisas. Assim, em nossa concepção, não devemos aceitar prontamente os mandos e desmandos de um determinado líder sem discernimento. Aliás, o discernimento é fundamental para a aplicação de nossa atitude precedente.
Recebemos a graça divina de discernirmos. Além desse dom, temos a experiência pessoal, que conjugados possibilitam a ampliação de capacidade de precisão em relação a um determinado ato de autoridade. É preciso ter clareza em relação a quem manda ou a quem determina o comportamento de outros. Nós não somos bichos, submissos ao que vai ou não acontecer mediante determinada ordem. Somos seres humanos capazes de escolha em relação aos nossos caminhos. E se mesmo Deus dá o discernimento e a capacidade de escolha, como pode exigir a obediência das pessoas sem questionamentos?

Importa mais obedecer a Deus
Não podemos nos esquivar da interpretação das palavras de Pedro: “Mais importa obedecer a Deus que aos homens” (Atos 4.19). Em nossa concepção, segundo o direcionamento de Pedro, a obediência a Deus está em sermos pessoas livres para optarmos pelo melhor caminho em relação à própria vida. O que importa, ao final das contas, é a categoria ética que precisa ser aplicada por todos aqueles que seguem o Deus da vida. Onde a ética fica relegada a um segundo plano ou onde a obediência está sujeita a seguir o que uma determinada lei exige, o princípio da obediência servil precisa ser subvertido. No contexto das palavras de Pedro, encontra-se um princípio específico marcado pela vivência que privilegia o bem-estar das pessoas e jamais a ordem de um autocrático.  
Retomando a carta de Romanos, escrita por Paulo, nos deparamos com a mesma argumentação de que a autoridade deve visar o bem. Essa expressão possui um sentido muito especial no texto bíblico. Ora, se a autoridade está condicionada ao bem, então, aquele(a) que pratica o mal não cabe nesse princípio.
O contexto do capítulo inicia-se em Romanos 12. 1-2: “Rogo-vos, pois, irmãos que apresenteis vossos corpos por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente para que experimenteis a boa, perfeita e agradável vontade de Deus”. O tônus desse verso está na boa, perfeita e agradável vontade de Deus. Isso significa que toda e qualquer ordenança ou toda e qualquer autoridade só tem sentido se estiver em acordo com a boa, perfeita e agradável vontade de Deus. Ademais, uma das expressões fortes desta passagem refere-se a não conformação com este século! É preciso não aceitar a forma, mas transformar, ou seja, sair da forma, ir para além da forma. Nessa perspectiva, precisamos voltar à pergunta que nos motivou esta reflexão: toda autoridade constituída vem de Deus?
Segundo a Enciclopédia de Teologia Bíblica, “a autoridade confiada por Deus não é absoluta; é limitada por obrigações morais”. (p. 84).  Essa perspectiva se torna basilar e nos ajuda a compreender que pessoa alguma possui a última palavra ou a verdade. Aliás, nada de absoluto pode se configurar na perspectiva do que serve na dimensão da autoridade. Ao contrário, todo o que serve na dimensão da autoridade deve estar sempre aberto a acolher o outro, mesmo o diferente, em suas inquietações. Mas o contrário é o que acontece. A pessoa imbuída pela pecha do poder se acha superior às outras e se acha no direito de mandar ou determinar. Assim, com a finalidade de pensar uma outra dinâmica, precisamos nos ater à dialética entre autoridade e amor.

Autoridade e a prática do amor
            Não podemos deixar de considerar que no contexto bíblico, a autoridade deve ser exercida sob a dinâmica do amor. Em 1 Coríntios 13, o hino ao amor, nos deparamos com um princípio fundamental, caracterizado pelo fato de que toda e qualquer ação, em qualquer nível da existência, deve ser permeada pela prática do amor. Aliás, sem amor, na dimensão agape – o amor ilimitado e sem bloqueios – não há possibilidades de encontro com o outro. Esse tipo de amor é legado pela vida, obra e ministério de Jesus. Ele é o amor que questiona as autoridades.

Jesus questiona as autoridades constituídas
No contexto cristão, o principal exemplo de questionamentos às autoridades constituídas vem de Jesus. Isso não quer dizer que Jesus não reconhecia a autoridade proveniente de Deus. Ora, no seu batismo, às margens do rio Jordão, Jesus reconheceu a autoridade de João Batista para a ministração do ato. A legitimação da ação de João se confirma no encontro inusitado entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
Jesus, então, inicia o seu ministério com um primeiro sermão que possui três tônicas: “O tempo está cumprido, e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no evangelho”. Marcos 1.15. Esta proposição tem a ver com mudança de paradigma em relação à noção de reino. Não mais Roma e sua dominação em toda a Judéia, mas o Reino de justiça. Nesse ponto, verificamos Jesus opondo uma dimensão à outra. Há uma inevitável crítica a um sistema, visando implantar outro, que em sua essência, nasce da perspectiva comunitária de Deus.
Outro exemplo que Jesus nos dá refere-se ao discurso das Bem aventuranças. No início de sua explanação, figuram entre os contentes aqueles(as) que possuem uma outra dimensão de vida, marcada pela busca do bem estar social. Além disso, na explanação das dimensões corriqueiras de um novo posicionamento, Jesus inicia sua discussão enfatizando: “Ouvistes o que foi dito... Eu, porém, vos digo...” (Mateus 5ss). Essa fórmula demonstra claramente a proposição de que Jesus vai fornecer uma outra interpretação. Vai questionar o instituído pra apresentar um plano diferenciado que valoriza profundamente o bem-estar de todos. Em nossa concepção, isso faz uma diferença muito grande em nossa reflexão sobre a autoridade, pois autoridade sem pensamento fixo na justiça, ação no todo social, prática do bem sob a dinâmica do amor, não tem sentido.
Para a Enciclopédia de Teologia Bíblica, “Jesus aparece, durante sua vida pública, como depositário de uma autoridade (exousia) singular: prega com autoridade (Mt 7.29), tem poder de perdoar os pecados (Mt 9.6ss), é senhor do sábado (Mc 2.28). Poder inteiramente religioso dum enviado divino, diante do qual os judeus se fazem a pergunta essencial: com que autoridade ele faz estas coisas? (Mt 21.23). A esta questão, Jesus não responde diretamente (Mt 21.27). Mas os sinais que ele realiza encaminham os espíritos a uma resposta: ele tem poder (exousia) sobre a doença (Mt 8.8ss), sobre os elementos (Mc 4.41), sobre os demônios (Mt 12.28). Sua autoridade estende-se pois até às matérias políticas; nesse terreno, o poder que ele recusou receber de Satã (Lc 4.5ss), recebeu-o na realidade de Deus. Desse poder, contudo, ele absolutamente não se prevalece entre os homens. (86).
É justamente esse elemento que muito nos interessa: o poder exercido por Jesus não subjugou os seres humanos. Assim, quando lideres impõem suas verdades ou suas regras, acabam conflitando o cristianismo e indo na contramão do legado de Jesus.

Autoridade episcopal é instituída por Deus?
A pastora metodista Nancy Cardoso em seu texto: “Brasil – Vai reclamar com o bispo!”,[3] publicado em 6 de dezembro de 2007, afirma que infelizmente, ao longo da história, a figura de um bispo era a de uma autoridade acima, além e superior.
A figura do bispo de um poder desmedido, movido a favores e exceções, a humores e trânsitos de autoridades: cicatriz da sub-evangelização. Era aquele tempo - e ainda é! - em que bispos e fidalgos se trocavam agrados e beija-anel. Tanto os bispos como os políticos sem território, sem pertença e sem povo. Sem vergonha.

Mas, é lógico que as subversões existem em todo e qualquer processo. Disso nos comprovam as ações de bispos tais como dom Oscar Romero que dizia:  "Eu tenho que escutar o que diz o Espírito por meio de seu Povo...".[4] Mediante sua observação sobre a subversão deste pastor e de outros, tais como Hélder, Tomás, Paulo, Xavier, Mendéz Arceo, Waldir, Mauro, Pagura... e Nelly, bispa metodista na Argentina, Nancy nos indica dois tipos de episcopado: episcopança – os bispos(as) pra quem a gente vai reclamar com (?) reclamando ao...,  e a episcolência – bispos(as) que a gente reclama com (!). A diferença, segundo esta autora:
É que no primeiro grupo estão aqueles (as) que ainda respiram ares de poder de cima. Com estes (estas) a gente marca audiência e vai lá contar nosso problema, pedir que se interesse por algo. Reclamar para... Estes? Continuam incensando governador! fazendo favor pra político! beijando anel de presidente em troca de três solas! Estão todos juntos - querendo ou não! - bispo dono de televisão, bispo sonhador de grandezas, bispo inaugurador de ponte, bispo a serviço do latifúndio e todos os outros em-cima-do-muro! bispos de parolas & carambolas. No segundo grupo, está Dom Luiz Cappio, com quem a gente vai reclamar com... junto! lado a lado. E aí está toda a diferença. Um bispo convertido ao rio e sua beira. Um bispo que faz do rio sua paróquia e com os beradeiros e beradeiras vai aprendendo o que o Espírito diz aos poderosos: agora! basta! não mais![5]

Assim, seguindo o rumo da presente citação, precisamos novamente confirmar o fato de que o poder exercido por um bispo ou episcopisa é poder exercido junto com o povo. Os anseios do povo são os seus anseios. A briga do povo é a briga dos epíscopos. A mesma dimensão de fé encontra-se nos dois lados, que afinal, são um só. A autoridade, nessa dimensão, só tem sentido se for assim.

Conclusão
Logicamente, nossa discussão sobre a questão da autoridade ainda necessita de múltiplos desdobramentos. Ao mesmo tempo, ela é urgente e necessária, principalmente num tempo marcado por tantos mandos e desmandos.
Na perspectiva da triunidade de Deus, nos deparamos com um legado fundamental onde a própria essência de Deus é democracia e comunidade. A imagem de um Deus totalitário e ditador precisa ser extirpada dos arraiais cristãos, urgentemente. É a imagem de um Deus, cuja essência é o amor, que precisa ser evidenciada na fé cotidiana. De fato, embora o desejo pelo poder para mandar seja evidente em todos os seres humanos e o convite para exercer a autoridade seja tônica necessária para a dinâmica social, tanto poder como autoridade precisam se submeter ao amor. Sem amor, tudo é vão e desnecessário. Em nosso raciocínio, não vale a lógica de Aristóteles: “A autoridade e a obediência não constituem coisas necessárias, apenas, mas são também coisas úteis. Alguns seres, quando nascem, estão destinados a obedecer; outros a mandar”, mas a do historiador e escritor italiano Cesare Cantù: “A autoridade é necessária para tutelar a liberdade de cada um contra a invasão de todos, e a liberdade de todos contra os atentados de cada um”.
Enfim, com essas sucintas argumentações, podemos concluir que a autoridade é um legado da força divina presente na própria dimensão da vida. Toda autoridade que quer exercer a autoridade somente pode fazê-lo pela dimensão do que se configura na palavra de Deus. Sendo assim, a autoridade constituída por Deus é aquela que vivencia o amor de Deus segundo os princípios da ética e do bem-estar do povo. É preciso dizer não à “brincadeira boca de forno”, pois não faremos tudo que o mestre mandar.



[1] BOFF, Leonardo. A trindade, a Sociedade, a Libertação. Petrópolis: Vozes, 1986, p. 15.
[2] Deixamos claro que essa nossa abordagem poderia apresentar outras chaves hermenêuticas, por exemplo, uma que estivesse em diálogo com as Ciências Sociais, e assim, possuir um outro nível de abordagem, mas nos ateremos de forma mais precisa ao nível teológico sem desprezar os outros níveis, logicamente.
[4] (Carta Aberta para o Irmão Romero, de dom Pedro Casaldáliga http://elistas.egrupos.net/lista/cidal/archivo/indice/373/msg/402/)

[5] A referência a Dom Cappio tem a ver com o conflito sobre a transposição do Rio São Francisco, conforme: http://www.umavidapelavida.com.br/detalhes_cartas.asp?ID=14

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