O Pastor - Segundo texto

O FOGO SOBRENATURAL

Na seqüência do pequeno livro O Pastor, de 1953, Antônio Pacitti, baseando-se em Exôdo 3:2 assim escreve:
“O vocacionado no Reino de Deus recebe um chamado divino. A vocação não vem por sucessão apostólica e muito menos por ordenação do exterior. Vocação genuína, real, é a ação do Espírito Santo no coração do redimido em Cristo e a par deste aspecto subjetivo, há também como prova do chamado divino os resultados satisfatórios que alcança o vocacionado ao realizar o ministério cristão.
Moisés quando apascentava o rebanho de seu sogro teve uma nítida certeza de seu chamado para ser o guia espiritual de um povo e, dirigindo esse povo, se tornaria uma inspiração para os vocacionados de Deus de todos os tempos. Quando tinha oitenta anos, teve a célebre visão da sarça que inflamada pelo fogo não se consumia. Este fogo foi aceso não pelo ser humano, mas pelo Todo-poderoso. Havia naquela sarça o natural, porém o sobrenatural se manifestou de maneira clara e visível ao grande legislador de Israel. Há quem pense realizar o ministério sagrado confiando nos conhecimentos científicos ou à luz da erudição intelectual. O fogo inflamado pela ciência da mente do homem realiza mil e uma maravilhas e o fogo que ilumina o campo da especulação intelectual ao espírito humano produz inúmeros benefícios à humanidade. Porém, sem o fogo do céu, o fogo sobrenatural, o fogo do Espírito Santo, há também múltiplos perigos para quem confia só na Luz da ciência e no brilho da erudição intelectual. Haja vista a guerra de destruição destes últimos tempos, a ansiedade constante em que vive o homem e o descontentamento geral de todos os corações; tudo isto é responsabilidade do homem de ciência e do homem de saber. Tivessem os grandes líderes da humanidade a chama divina em seus corações, realizariam eles uma obra construtiva de paz e felicidade na terra.
            Moisés nos seus dias conheceu o fogo da ciência e da cultura, mas só se tornou benção quando viu a sarça arder e em seu coração recebeu o calor do fogo sobrenatural.
            O ministro do Senhor para executar obra evangélica eficiente, para levar pecadores arrependidos aos pés de Cristo, para ser porta-voz das palavras consoladoras do Evangelho é necessário que tenha prova a sarça divina em seu intimo. Mister se faz que a luzerna de Deus se acenda em sua alma. A luz só se ateia quando o ministro do Senhor medita na vida espiritual.
            Naquelas paragens solitárias, onde as águas e pastagens eram raras, Moisés meditava. No seu íntimo uma voz lhe segredava, que tinha oitenta anos e nada fizera de importância até essa idade, e portanto, o “EU SOU” responsabilizava-o para a grande e portentosa tarefa de libertar o Israel de Deus. Nesse recolhimento viu Moisés através da sarça o fogo de Deus, o fogo do céu e, ali, contemplou um mundo espiritual de maneira que naquele momento histórico, deixou de ser pastor de ovelhas, para ser condutor de um povo do qual sairia o Redentor do gênero humano, o Rei dos reis e Senhor dos senhores.
            Nessa concentração viu mais que um arbusto queimando-se sem ser devorado pelo ardor do fogo. Observou o sobrenatural e percebeu que uma chama celestial inflamava-se em seu espírito. Era a paixão que invadia sua alma para realizar a árdua tarefa de libertar seus irmãos escravizados no Egito. Desse momento em diante se tornou o grande herói, condutor do povo de Deus para a terra da Promissão.
            O fogo divino acende-se quando o coração medita e se recolhe para pensar nas cousas do Espírito. Foi numa ocasião de recolhimento espiritual que o salmista declarou “O Senhor acendeu um fogo dentro de mim, quando meditava” (Salmo 39:1)
            Agostinho, Lutero e Wesley tiveram a experiência da sarça ardente, sentiram o calor do fogo do céu e então se tornaram verdadeira benção para seu século e homens de valor na História da igreja. Estes varões sentiram a chama espiritual quando em reflexões subjetivas, íntimas, buscavam a graça abundante de Deus.
            Não há inconsistência alguma entre ciência, cultura e unção do Espírito. Moisés conheceu a ciência de seus dias e foi homem educado em todos os conhecimentos da época. Isto não foi obstáculo para ser homem espiritual e para ser vocacionado divino para um ministério sagrado. Não houve incompatibilidade entre o fogo da ciência e a luz da sabedoria com o poderoso clarão sobrenatural que iluminou a alma de Moisés. O que fez de Moisés uma benção foi o chamado de Deus por meio da chama que ardia na sarça.
            Busque o ministro a luzerna da ciência, ilumine-se na cultura do intelecto, mas para derramar felicidade na terra, para levar uma palavra de consolo aos corações angustiados para transmitir mensagem de vida eterna só há um caminho, o fogo divino, a brasa viva do altar, a chama do Espírito Santo, que se recebe nos momentos de recolhimento interior, quando o ministro medita acerca do mundo espiritual e está pronto para ouvir a chamada de Deus.

            O servo do Senhor é criatura frágil como arbusto, mas com o fogo do Espírito Santo, no deserto espiritual em que vive, torna-se chama poderosa para iluminar corações, a fim de que contemplem o Cristo crucificado e ressurrecto para receberem a graça da redenção”.

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