Mensagem para a IMBA

Saudade... É o que tenho. É o que sinto. É o que me consome. Saudade, palavra que só existe na língua portuguesa e que me faz, e que me refaz na continuidade dos dias que passam e que chegam; que chegam e que passam. Saudade é o sentimento mais presente nesse coração imaginário que guarda na fragilizada retina do olho esquerdo, os rostos, os sorrisos, as faces e os choros. Tenho saudades dos que me são queridos. Tenho saudades de vocês. Aqui em Paris, nos tempos da instalação da saudade, passaram-se segundos, minutos, horas, dias e meses. Pensando nesse tempo vivenciado aqui, me vêm agora na tela inquieta da minha mente três metáforas que quero partilhar com vocês e que resumem meu trajeto até agora. A primeira refere-se ao retiro espiritual que eu vivi aqui, tendo como companhia o silêncio na maioria dos momentos; a língua e a cultura estranhíssimas; um rádio comprado num bazar marroquino e as imagens geradas pelo meu notebook, já cansado de tanto trabalhar. De fato, esse retiro que me trouxe muitos ganhos e fez de mim um ser novo, marcado por ocorrências inusitadas, desagradáveis e felizes, bem como pela sempre presença ausente do ausente, moeu-me, desde o âmago da alma. Purifiquei-me de minhas angústias mais insólitas para novamente me encontrar com o valor singelo dos pequenos e profundos vestígios do Evangelho. Quero afirmar-me, uma vez mais, em todos os becos e vielas das cidades por onde passar, que vivo a simplicidade da herança legada por um Jesus de carne, osso e de um espírito renovado que sempre nos convidou, tão somente, a amar a Deus e ao próximo como a nós. Neste retiro, vi nas caladas das muitas madrugadas, a face de um Deus que eu ainda não conhecia. Minh’alma se encantou com o Eterno. A segunda metáfora tem a ver com a escalada de uma montanha. Minha vida aqui se comparou também a um homem que chegou ao cume do monte e de lá, avistou ao longínquo, a linha sagrada do horizonte. Os olhos lacrimejaram e ele perguntou a si mesmo: - para que me gastei pra esse momento? Como esse homem, me debulhei em questionamentos. Cheguei onde sonhava chegar. Cheguei onde não imaginava chegar. E me fiz ali, no cume do monte, um menino cansado e extasiado, vendo o corpo ferido ser beijado pela brisa gelada e cortante. A alma se decantava nela mesma, para no silêncio de quem só observa o desconhecido, receber a doçura das novas expectativas. A terceira e última metáfora narra o sentimento de pequenez que exaure as potencialidades dos valentes. Em tal momento, não sobra coisa alguma a não ser um vestígio de coragem, tão rara aos aventureiros. Todavia, o que move um aventureiro não é esse vestígio de coragem, mas o medo de não tentar e o medo de não conseguir. Movido então por essas duas lanças pontiagudas miradas ao coração, me vi apavorado e marcado pela experiência da desestabilização. Nada mais bizarro do que se sentir vivo, consciente e desestabilizado. Como artista, debruçado na arte plástica por tempos e sendo criticado veementemente por opositores que desconhecem o sabor do sacrifício, me vi sendo alvo das palavras que não liam o coração e as intenções, mas que rangiam junto às dobradiças das bocas uma espécie de desentendimento sem precedentes e irreal. Tive medos múltiplos. Medos que me assombravam e me deixavam sem chão. Só o Eterno, nas horas perdidas da madrugada, acalentava-me com sua maviosa canção de ninar. Como criança, me aninhava nos braços do que não via, para em minutos, ter o prazer de ver novo dia raiar. O retiro, a escalada e a pequenez gerada pelo medo me fizeram enxergar melhor a vida e perceber que é justamente no campo florido da simplicidade que existem as flores mais perfumadas. De preferência, os girassóis que tanto me inspiram. Penso sempre numa comunidade de girassóis amarelos, de todos os tamanhos exalando perfumes psicodélicos como os que estão nas telas de Van Gogh. Vendo os girassóis amarelos, dos quais também eu sou, me retiro do meu retiro, desço a montanha com vigor renovado e enfrento meus novos medos para continuar a afirmar com veemência que o valor da vida reside – mesmo – na boa vivência com amigos que, despreocupados com as besteiras que todos fazem no cotidiano, se importam, sobretudo, muito mais com a celebração solidária numa mesa regalada a boa comida e regada a saboroso vinho, como o da segunda remessa do casamento de Caná. Eu quero afirmar que a vida em comunidade é uma benção para todos. O que vale, ao final das contas, é a capacidade de conviver com nossas mais preciosas diferenças, sintonizando as estações para, num movimento surreal, fazer diferença na sociedade com ações que a dignifiquem. Diferença essa que não seja embrutecida ou emburrecida pelos discursos de uma verdade sombria, mas, antes, solidária e disposta a sempre caminhar a segunda, a terceira ou a décima milha. Enfim, quero reencontrar-me com essa amada comunidade no dia 7 de julho de 2013, quando terei a oportunidade de deixar meu retiro, chegar ao pé da montanha e declarar os meus medos mais remotos, agradecendo a Deus suas benesses sobre minha família e sobre vocês, bem como celebrar o vigésimo terceiro ano do aniversário de caminhada conjugal com aquela que ganhou ainda mais meu respeito, admiração e amor apaixonado. Faltam 30 dias para eu chegar à bela cidade de Juiz de Fora. Brevemente e conjuntamente, poderemos trocar olhares, sorrisos e abraços, bem como dizer com todas as letras: Deus conosco. Aproveito o ensejo para desejar às mães um restante de domingo bem amistoso, carregado da sinceridade e do respeito dos filhos e filhas – coisas mais preciosas que presentes. Um beijo grande de quem guarda múltiplas memórias de vocês. Deus convosco...

Comentários

Postagens mais visitadas