Basta a Solitude...

Há muito tempo coisa alguma escrevo que me dê estrito prazer. E o abandono a este tipo de escrita deveu-se especificamente à transição que estou vivenciando neste exato momento de minha vida. Estou na França, mais precisamente vivendo dias em Paris. Cheguei no dia 14 de janeiro de 2013 e estou em pleno processo de adaptação à vida, língua e cultura do povo francês. Mas que França? Como no Brasil, é grande o número de pessoas oriundas de outras etnias ou mesmo fruto de diversos processos de miscigenação. Poderíamos aqui falar da França negra, da França latina, bem como da França oriental. Eu, por exemplo, resido numa autêntica Babel invertida, chamada Cité Universitaire, onde jovens de diversas partes deste planeta se encontram e se desencontram paulatinamente. É Babel invertida porque garante a variedade e a democracia das línguas, numa confluência final e possível com a fala francesa. Na França onde estou habitando, o céu cinza rodeia a cabeça confusa e cheia de inquietações. Elabora-se no âmago da alma uma espécie de espiritualidade da solitude, já que em francês, assim como em outras etnias, não existe a palavra saudade. De fato, solitude não é saudade, porque saudade pode ser uma coisa boa, uma alegria inusitada instalada nas agonias do ser. Mas solitude tem a ver com solidão e apertos constantes nos lados obscuros da humanidade. O céu cinza é acompanhado de um frio penetrante que provoca em todas as gentes o encolhimento e a conversa extremamente curta ao longo das distintas boulevards. As toucas e as luvas escondem partes preciosas da corporeidade e afetam os relacionamentos. Não se houve risos, tampouco a alegria nos semblantes. Em todos os cantos, o canto repetido dos corvos demarcando territórios. Eles voam e dominam os parques, com seu colorido peculiar – noir, anunciando mais frio e quebrando o silêncio das gentes. Vejo da janela do quarto a neve chegar. Ela é bonita. Os flocos de gelo caem lentamente como plumas de algodão doce e vão embranquecendo a paisagem. As árvores e seus brotos acolhem os flocos. O gramado dos campos e dos parques recepciona o gelo que se impõe. Nos lagos se forma uma fina camada de gelo e os corvos ainda cantam sua canção na mesma nota. O transporte se complica mais ainda, os grandes magazines se enchem e as pessoas buscam refúgios em locais acalentadores. Da minha parte, continuo na janela a observar os flocos caindo, acompanhado de uma saborosa caneca de café. O silêncio, a solitude, tudo se transforma em convite para a depressão, para o ensimesmar-se. É preciso dar um basta. Vestir um casaco e aventurar-se pelas ruas brancas. A neve não pode barrar-me. É preciso romper o gelo e criar alternativas. É preciso dizer com Gabriel Marcel: “La solitude est essentielle à la fraternité ». De fato, a solidão é essencial à fraternidade. E assim, nos abrimos à fraternidade, ao abraço amigo, à divisão da garrafa de vinho e a partilha do que não se deve partir. Paris, 24, janvier 2013.

Comentários

Rozélia disse…
Adorei o texto!!

Grande abraço e curta bastante o momento cinza com as ruas brancas de neve!!!

Rozélia Soares.
Lilian disse…
Oi meu amigo,
Como sempre um texto bem escrito e que revela seu coração.Parabéns.Deus te abençõe muito.Que essa "solidão" aí te faça experimentar a doce presneça do Nosso Deus, que faça sentir a saudade que traz alegria e te impulsione a conquistar novas amizades.Abraço,Lilian
Ana disse…
Ei Pastor Moisés já chorei muito a música do Renato Russo e hoje ao ler sua publicação,apesar que saudade não tem definição e quando meus olhos enchem de lágrimas sei que estou aqui e bem viva e com saudades. Te admiro muito e nunca esqueça de mim.Beijos seu coração. Ana

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