Divagando sobre o texto: “Entreguem as terras às filhas de Zelofeade”. Uma reação à abordagem da Episcopisa Metodista Marisa, da REMNE.

Intrigou-me ouvir o clamor profético salientado na epígrafe do texto da pastora Marisa, que exerce na atualidade o governo episcopal. Aliás, ela é a única mulher no chamado colégio episcopal da Igreja Metodista. Eu até acho – e ando dizendo isso por aí – que o referido colégio deveria ter mais representação e governo feminino. Quem sabe assim, se humanizaria mais. A referida pastora, depois de citar histórias que evidenciam o preconceito em relação ao ministério feminino, latente e evidente em nossas comunidades locais, oriundos do perpassar de múltiplas ideias machistas ao longo de tempos, fala de suas dúvidas e inquietações no tempo da juventude e chega, enfim, ao ponto crucial de sua reflexão: a questão do governo na dinâmica da Igreja. Sobre a questão evidenciada, resolvi ler as entrelinhas. Um documento como este é na verdade uma luz amarela neon que se acende para sinalizar a todos(as) que alguma coisa não está legal. E eu acho – aqui é achismo mesmo, para pessoa alguma me julgar de blasfêmias – que num colégio misógino, a presença de uma mulher é secundária e, até mesmo, irrelevante. Duvido que suas ideias e posicionamentos sejam respeitados de forma coerente. Num lugar onde existem sete homens e uma mulher, quem manda é a maioria. As parábolas introdutórias, citadas por ela, nos mostram claramente que o que aparece é, tão somente, uma parte do todo. De fato, o que nos chega são recortes ou fragmentos de realidades. E que fragmentos são esses? Como já dissemos, são os posicionamentos e percepções do lugar feminino que não são considerados pelo lugar masculino, que em suma, é maior que aquele. O mundo é machista e patriarcal. Quando uma mulher busca o seu espaço de direito e mesmo o seu posicionamento frente a uma realidade deve, no mínimo ser respeitada. A questão não é discutir que tipo de governo vale mais. E a referida pastora não quer afirmar que a forma de exercer governo numa lógica feminina é melhor ou pior. Mariza está afirmando que o governo em lógica feminina é tão importante quanto o governo exercido em lógica masculina. Então, não se trata de dois tipos distintos de governo, mas de um só, que independe de ser masculino ou feminino. Exercer o governo é importante, mas precisa ser cadenciado pela dinâmica do equilíbrio, pois todo e qualquer objetivo deste ou daquele governo deve ser o bem estar social. Entretanto, o que vemos na atualidade é, realmente, uma confusão quanto a exercer o poder. Inclusive, é muito triste vermos líderes religiosos de distintas Igrejas “confundir a função, que é uma instrumentalidade, como sendo o absoluto produto final. Confundir governados/as com objetos de manobra que só tem sentido enquanto garantam os benefícios e a perpetualidade da função. Confundir a ‘cadeira do governo’ como sendo a do próprio Deus”. O outro problema destacado pela pastora refere-se ao toque de absolutismo e superioridade presente na fala e ações de pessoas que existem pra servir, segundo a lógica de Cristo. Mas eu digo: os que assim agem foram contaminados pelo vírus de um cristianismo medieval, de cruel estirpe. Então, como se percebe, o problema não está no exercer do governo, mas nos mandos e desmandos de pessoas que foram chamadas para viver uma vida de simplicidade e serviço ao próximo, mas não o fazem. No modo de navegação social brasileiro está explícita a frase: “sabe com quem está falando?” Essa fase demonstra claramente a ideia de que existem pessoas pra mandar e pessoas pra obedecer. Por isso, Marisa afirma que a pergunta que tonifica a práxis dos que governam, em sua maioria não é “quem é que GOVERNA AQUI, mas sim QUEM MANDA AQUI”. Para ela, “há uma diferença gritante entre governar e mandar”. Segundo a lógica da sua argumentação, o governo é inspirado em Deus enquanto que o mandar possui outros fundamentos. A percepção de um Deus que governa o mundo pela lógica do amor é execrada pelos que defendem seu status quo. Então, a reflexão da pastora que afirma que o “o governo não é fim em si mesmo; ele é instrumento de serviço que se move por este clamor: ‘Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o Teu Nome. Venha o Teu Reino e seja feita a Tua vontade, assim na terra quanto no céu...’. Ele se alimenta de um princípio básico de Lei: ‘...buscai primeiro o Reino de Deus e todas as outras coisas vos serão acrescentadas”, é uma blasfêmia para os que foram picados pela mosca azul. Por isso a sua crucial pergunta: “Mas para quem estas verdades fazem sentido? Elas mais se parecem com as loucuras da crise existencial da Alice, naquele País das Maravilhas. O mundo real era que lhe parecia louco. Nele havia uma rainha de cabeça enorme, que sabia dar ordens como ninguém – e que pode ser comparada às figuras de autoridade que carregam a enorme cabeça do poder, usando-o despotamente”. A pastora Marisa, depois de fazer uma boa leitura sobre a realidade ocidental que nos afronta, elucidando os dramas das hostes políticas, sociais e econômicas, apresenta-nos os sentimentos e sentidos que devem reagir às formas ignóbeis de poder. Então ela fala, inicialmente, da anuência que se caracteriza como um consentimento e aceitação de tudo na esfera da normalidade. Em segundo lugar, fala da resistência como a postura do perguntador, do que “se sente livre para ser e sentir-se parte do processo do exercício do poder e por isto não se sente inferior/a aquele/a que comanda. Quando percebe algo que entende ser desvio do governo, faz indagações. Via de regra, é tida como subversiva (com um teor jocoso feito aquele que se deu a comunistas: humanos/as maldosos/as que se ‘alimentavam de criancinhas’ mortas por eles/as mesmos/as). Não é bem aceita porque aquele/a que está no comando e que teme qualquer questionamento, entendendo que fazê-lo é o mesmo que ‘querer tomar o lugar de’". Confesso que eu gosto dessa segunda postura. Sinto-me um subversivo. Mas a postura de resistência pode ser também a busca pelo poder, a maquinação do mal e o criticar por desafetos, tão somente. Como tudo na vida, as dinâmicas possuem perspectivas positivas e negativas. Em terceiro lugar está a indiferença. Segundo ela: “Esta postura costuma ser a mais comum. Não se sabe do assunto, não há preocupações com o mesmo, não se tem tempo para isto”, segundo a lógica: “‘quem comanda é quem sabe’; isto não é ‘função minha’; isto não é ‘coisa de crente’; isto é ‘política e não quero inteirar-me disto’, ‘são questões de comunistas e/ou feministas, etc.’”. Marisa ainda enfatiza, nesse terceiro tópico que “as pessoas que exercem esta postura terminam por ser úteis a grupos oportunistas, que as usam segundo seus propósitos absolutamente distantes de qualquer bem estar da humanidade e do mundo criado. São como ovelhas pastoreadas por lobos/as devoradores/as”. Em último lugar está a perspectiva do coração de Deus. Essa linguagem metafórica usada pela pastora visa conceber a ideia de que existem pessoas que “almejam o governo por verem nele uma forma clara de serviço. São capazes de dar a vida pelo que creem. Não se deixam corromper com as seduções satânicas de dobrarem-se e adorarem as formas corruptas para com isto obterem o mundo inteiro”. Para os que abraçam essa lógica, “o exercício do poder não lhe era um fim em si mesmo e sim um instrumento de serviço a Deus e a toda a humanidade”. É dessa forma última que ela percebe o governo das mulheres e dos homens. “Nesta perspectiva o/a maior/a é aquele/a que serve a Deus e aos seus propósitos. O trono no qual se senta é o da Obediência e o que lhe dá autoridade para nele sentar-se é o carregar diário da cruz. Os interesses que movem este governo estão focados nos alvos divinos de fazer das pessoas novas criaturas, guiadas pelo Seu Filho Jesus. Seus/as participantes têm compromisso com a mesma cruz que Cristo carregou: amar a Deus acima de tudo e ao/à próximo/a como a si mesmo/a”. E corrobora: “Em sendo assim este governo eclesiástico deveria ser sinal profético de Deus a todo o mundo existente. Deveria, mas nem sempre o é. O que ocorre é que valores do Reino do Pai são misturados aos do reino deste 'mundo' – que por sua vez jaz no maligno. Ao invés de ser luz para o mundo, torna-se escuridão sob a influência dele. Por ser o evangelho de Jesus, a partir das suas bases de fé, uma loucura para este mundo, comumente se vê o povo de Deus cedendo às pressões e caindo em tentação. O exercício do poder eclesiástico perde a semelhança com o Criador e adquire uma performance do mundo decaído. Como diria a gíria: ‘é aí que o bicho pega’. A leitura da Palavra deixa de ser renovadora para ser instrumento de manutenção do status quo. Ou então para ser apenas assunto de discursos, sem que provoquem qualquer mudança neste século. Com agravantes que podem torná-lo ainda mais maléfico: a divinização de quem o exerce. Aí então é que a situação fica ainda mais aterradora. Sob este foco é que qualquer questionamento do estabelecido corre o risco de ser taxado de ‘coisa de gente rebelde, que não honra aos/às ungidos/as de Deus’. Pode-se chegar ao extremo ideológico de ser chamar de incrédulos/as ou de possuídos/as pelo diabo aqueles/as que ousem inquirir o exercício do poder”. Depois dessa abordagem profética, Marisa elucida a sua reflexão com um texto bíblico. Em suas próprias palavras: “Moisés, nos dias do seu governo, fora abordado por cinco mulheres, conhecidas como sendo as filhas de Zelofeade. Este morrera e deixara cinco filhas. Não havia irmãos, não havia cunhados e muito menos marido na vida de qualquer delas. Para a análise daquele século estas mulheres estariam PERDIDAS, já que não havia um homem que pudesse dar-lhes nome, identidade e direito de existência. Era esta a visão de gênero daquela gente chamada povo de Deus. Em suas leis, que pretendiam ser representações da justiça e da ordem divinas, estava escrito que nenhuma delas teria direito aos bens que o pai deixara, após a sua morte. A única razão desta impossibilidade era o fato de a descendência de Zelofeade não contar com nenhum representante do gênero masculino. O ‘pecado’ daquelas filhas era o de ser mulheres – isto lhes tirava o direito do governo das propriedades familiares. E segundo a lei não haveria o que discutir: que se cumprisse o escrito e que as mesmas se ativessem a obedecer sem questionar. Lei é lei; ordem é ordem. Neste cenário clássico surge o inesperado. Aquelas mulheres decidem ir até Moisés e pedir a ele que alterasse aquele enunciado legal e a elas concedesse as terras que foram do seu pai e, portanto, delas também. Sem dúvida este foi um clamor de coragem e até de subversão da ordem estabelecida. O que se esperava era que Moisés exercesse sua função legislativa e interpretasse a lei: ‘não, não era cabível dar ouvidos aquela petição. Que elas voltassem ao seu lugar de somenos e acatassem as sabedorias da lei’. Mas não mais que de forma surpreendente, Moisés faz algo inusitado: pede tempo a elas para orar antes de respondê-las. MOISÉS DECIDE OUVIR A DEUS E NÃO APENAS SEGUIR POR CAMINHOS JÁ ANTES CONHECIDOS. O fato é que, enquanto orava, Deus falou a Moisés: ‘Entregue a elas o que a elas pertence.’ E as terras de Zelofeade foram entregues às suas filhas, para que exercessem o governo das mesmas”. Como se percebe, a argumentação é profética e gera no que é temente a Deus uma série de reflexões outras que precisam sair da zona das ideias para se instalarem na zona da ação. De fato, como pessoas presenteadas com vida pela graça de Deus, não podemos ceder às mais distintas formas de maldição travestidas pela alcunha de poder para subjugar. Somos convidados, assim, a ouvirmos Deus e nos levantarmos contra toda e qualquer forma de injustiça. Fiz questão de reagir ao texto da distinta pastora Marisa, que exerce o governo episcopal na Região Missionária do Nordeste, por ser um eco a muito do que tenho falado e defendido. E espero que, de uma forma ou de outra, tenhamos a possibilidade de marcar esse tempo com atitudes que denunciem toda e qualquer forma de poder arbitrário e malicioso. Kyrie Eleison.

Comentários

Dalva disse…
E novamente Adélia me volta: "Quando nasci um anjo esbelto,desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira(…)Vai ser coxo na vida é maldição para homem.Mulher é desdobrável. Eu sou." Reajo e digo... Deus não nos criou coxos, criou-nos para a sua glória e ela só existe na HUMANA DIGNIDADE. Sejamos todos e todas benditos e benditas, reajamos sempre ao manda quem pode e obedece quem tem juízo.
Caro Moisés, você repercutiu bem o texto da Marisa, especialmente ao captar o sentido e os sentimentos nas entrelinhas.
É uma pena que alguns bispos sequer entenderão porque não têm o hábito de ler e, quando leem, leem textos neopentecostais prontos na web.
Enquanto o texto da Marisa discorre sobre "governo" de forma mais ampla, ele flui bem. Ao entrar na linguagem teológica, achei-o confuso, ou melhor, "saládico".
De saída, não existe nenhuma relação do Jesus Cristo dos Evangelhos com o exercício de qualquer governo. Ele contesta, resiste, e quando seus discípulos acham que "agora é a nossa vez", Ele diz "meu reino não é desse mundo", frustrando-os completamente.
"Deus" está mais adequado ao tema "governo", porque muitas leituras teológicas já foram feitas desde o AT. E possivelmente seja o Deus Soberano de Calvino a melhor interpretação teológica desse tema; segundo o prof. Zwinglio, as estruturas democráticas de exercício de governo na Europa e EUA foram inspiradas pelas Institutas.
Mas, a IM é tão pequena para tanta pompa e poder que seria melhor "vender tudo, dar aos pobres" e seguir com Jesus sem hierarquia alguma. Ab!
Moisés Coppe disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Poló Bracher disse…
Gostei do texto da pra. Marisa e acho que o pr. Moisés aprofundou um pouco ao falar das entrelinhas e gostei dos comentários do pr. Maurício ao citar o governo de Jesus como não sendo deste mundo. Também percebi essa "falha" no texto da Marisa.

Poló Bracher

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