SUBVERSÃO
Explodiu em minha mente a constatação de que os ensinamentos de Jesus, especialmente as suas parábolas, possuem um grande teor subversivo. Eu sei que essa palavra possui uma forte carga de preconceitos. É que ela condiciona a mente a pensar em coisas que são negativas em sua essência. Mas, seguindo aqui um conselho de Stanley Jones, “as palavras, assim como as pessoas, precisam ser resgatadas”. Assim, vou tentar resgatar o sentido dessa palavra e pensar na espiritualidade subversiva e protestante, em si. Subversão é uma palavra polissêmica. Ela pode ser interpretada a partir de diversos prismas. Subversão tem a ver com movimentações intestinais que escatologicamente se impõem. É uma dimensão que ocorre sem que haja, necessariamente, uma causa. Subversão é acontecimento extático. É a ação da água represada que busca caminhos alternativos. É o mofo na parede ou no muro. É o esguicho transtornador que insiste em se lançar ao ar, num afã libertário. É a semente debaixo da terra que insiste, teimosamente, a buscar um lugar ao sol. Basicamente, subversão tem a ver com verter por baixo; fazer ruir estruturas; destruir conceitos; superar paradigmas. Quem me alertou sobre o teor subversivo da fé foi Eugene Peterson. Nos seus livros: A Espiritualidade Subversiva e O Pastor Contemplativo, ele ressalta a natureza da subversão como um princípio da espiritualidade humana coligada à ideia de Reino de Deus. Aliás, não há dimensão mais subversiva do que a do Reino de Deus. Essa nossa constatação se dá porque a natureza do Reino está ligada a algumas coisas que nada tem a ver com o mundo real. Nessa linha de raciocínio, todas as questões inerentes ao Reino de Deus acabam acontecendo nas entranhas estranhas da espiritualidade humana. A fé é a mola mestra da subversão. Fé é a qualidade da atitude que todos assumimos frente ao desconhecido. Uma fé subversiva não possui limites, pois não se condiciona a estruturas ou institucionalizações. Ela vai além e provoca ações e reações que mexem e remexem com as pessoas dadas a tranqüilidade e conforto. A subversão provoca pessoas a agirem e reagirem contra estigmas e postulações pré-fixadas. O agente, contaminado pelo espírito da subversão, não tem medo, não tem culpa, não se ressente, não se prostra, não se enquadra, subverte, independente das lógicas e dos mandos e desmandos. A fé é salto no escuro, já nos advertiu Kierkegaard no estágio religioso de sua filosofia existencial que critica o idealismo, principalmente o hegeliano, e salto no escuro é subversão sempre seguindo a lógica: “Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente. Não ousar é perder-se”, conforme este mesmo autor. Acho que o que vale a pena é a elaboração de temáticas que buscam elaborar jocosamente uma série de argumentos que criticam a ordem estabelecida e as lógicas do poder. Ora, a subversão ri daquilo que está evidente e reelabora a interpretação do mundo e das suas armações pelos caminhos inimagináveis de uma outra lógica. Realmente, os últimos serão os primeiros e quem quiser ganhar, vai perder. Portanto, trata-se de um processo ironicamente criativo, extremamente criativo. Somente os criativos podem se considerar subversivos. Jesus, inclusive admoestou seus discípulos a serem símplices como as pombas e astutos como as serpentes, conforme Mateus 10.16. Assim, a opção que se impõe a nós é a de subvertermos. Ora, não se trata de perverter, mas subverter: pensar, falar e agir diferente, segundo a lógica do que é atribuído a Che Guevara: Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás! Ora, é realmente preciso acolher essa síntese marcada pela postura firme, pela serenidade e pela ternura sempre. Assim, pode-se empreender uma guerra e até estabelecer o posicionamento das armas, mas não se pode perder a serenidade. É o estabelecimento dialético entre o lúdico e o lúcido. Dessa forma, os olhos demonstram a firmeza e a ternura. A convicção e a tranqüilidade. A iluminação de um futuro antecipado frente a um presente complexo. Nesse estágio de iluminação, tranqüilidade e consistência, coisas e fatos podem acontecer e ninguém pode prever, pois não há afeição plena ao poder. O subversivo possui um encantamento pelas pessoas e luta contra sistemas e instituições. Acho que essa é a lógica abraçada e empenhada anteriormente pelos reformadores protestantes. Subversão é o que eu abraço nesse momento. Seja ela bem-vinda em minha alma.

Comentários

Lilian disse…
Oi amigo e Pastor amigo,

Muito interessante seu texto...despertou em mim também o desejo pela subversão e assim com certeza de viver plenamente o verdadeiro significado do Evangelho de Jesus.Pode contar comigo nesta caminhada.Bjs,Lilian
Dalva disse…
Amei o texto e a foto ilustrativa! Mas por que será que subversão tem sempre que dar zebra na cabeça? E no traseiro!!!
walkimar disse…
o PT tb era subversivo nas décadas de oitenta e noventa. Hoje, não mais. A subversão, parece-me, precisa de uma ideologia, ela não subsiste por si só, senão é apenas contra tudo e todos, os já conhecidos rebeldes sem causa se encontram aí.creio que a vida é mais, devemos ser proativos. Procurem pelos hippies da década de sessenta, seus filhos, netos....restam apenas lembrancinhas. Lembra: faça amor, não faça guerra. Banho? o que é isso? Anarquia aqui e agora.
Proatividade. Propostas de mudança, não somente destruir,jogar pedras.
è mais ou menos isso que penso....Walkimar

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