É POSSÍVEL SANTIDADE SEM SANIDADE?

Todas as vezes que um vendedor me oferece um produto, eu o pergunto se ele já possui ou adquiriu o que vende. A resposta, invariavelmente, é: não! E aí eu questiono por que o vendedor de um determinado objeto não o possui. Parto da premissa de que as pessoas somente podem falar ou vender sobre o que realmente possuem ou acreditam.
E nesse ponto, estabeleço uma crise considerável. É que somente consigo defender o que acredito piamente. Não dá pra defender ideias e ideais de estruturas que se tornam esquisitas, esquizofrênicas ou até, desconfiáveis. Acontece que, por uma razão óbvia, só dá pra defender causas que sejam, no mínimo, passíveis de uma pequena estrutura ética. Eu não quero ser um vendedor de coisas que não acredito, mas sim, responsável pelo que apresento, vivo ou prego. Nessa perspectiva, creio na santidade que é elemento indispensável para a crença que se exalta diante das circunstâncias contraditórias das estruturas.
Assim, quando observo de perto a estrutura da igreja evangélica brasileira me perturbo, pois o que vejo são sinais de muita burocracia, traduzida pela metáfora da santidade e pouca sanidade. Aliás, não é tanto com a igreja evangélica que eu me perturbo, mas com as tolices que são feitas no meio dela. Eu sei que a igreja é sempre maior que as babaquices que lideres fazem em nome de Deus, por isso confesso estar abestalhado com as muitas maluquices feitas sem o mínimo de critério. E o pior é que, segundo os arautos da “visão”, tudo lhes é permitido, pois estão sob a égide de que há uma permissão de Deus. Mas, que Deus? Não o Deus da Bíblia. Talvez, um outro, sei lá qual... E aí, se perpetuam as ilógicas dos semideuses que nada mais querem do que enriquecer com a fé alheia.
Essa "santidade" (?) exigida aos fiéis de uma determinada comunidade é emburrecida, pois requer deles e delas a irresponsabilidade de responderem aos seus líderes com uma frase peculiar às brincadeiras pueris: “faremos tudo o que nosso mestre mandar”. E se não fazem o que o mestre quer, acabam sendo rotulados de rebeldes e posteriormente, de feiticeiros. Fazem, assim, os fundamentalistas que lêem passagens bíblicas sem contextualização e se apegam à literalidade. Ademais, a santidade exigida não requer graça. É a salvação pelas obras. Tem que jejuar. Tem que orar. Tem que participar dos cultos. Tem que dizimar. Tem que participar das campanhas. Tem que... Em outras palavras, salvação pelas ações, pelas obras. Mas onde fica a graça? Para os acirrados defensores da “visão”, salvação pela graça é um mero e esquecido discurso teológico, ilógico.
A "santidade" (?) exigida pelos arautos da visão é marcada, ainda, por uma lógica empresarial. O líder eclesiástico – recuso-me usar aqui a palavra pastor – para se evidenciar, precisa ser um cara bem vestido, que dirija um carrão, durma em hotéis estrelados, tenha visibilidade midiática e ame o poder a ponto de se candidatar a político de sua cidade, e só. Doravante, precisam se contentar com a mediocridade, pois não lhes sobra competência maquiavélica para ascender ao poder supremo de uma nação. Friso aqui que competência maquiavélica é uma das principais qualidades para os que se amealham ao poder.
Entretanto, eu não quero nenhuma santidade sem sanidade. Desejo de todo coração uma santidade com sanidade. E pra que fique claro o sentido do que quero abordar, torna-se fundamental dar o significado do termo sanidade: 1. Qualidade de são. 2. Saúde; normalidade física ou psíquica. 3. Higiene, salubridade. 4. O estado higiênico de um lugar, a salubridade de uma terra.
Como se pode perceber, não dá pra conceber santidade sem sanidade. É que a santidade precisa de um recurso equilibrado para melhor se qualificar dentro da experiência espiritual humana. Embora a sanidade seja passível de muitas críticas, pois o mundo é “louco” e experienciado pelos “loucos”, ela se torna um referencial importante para o critério de plausibilidade. Ora, sanidade não tem a ver somente com saúde mental, mas com a admissão de uma sensibilidade que permite estabelecer limites aos todos complexos da vida. A igreja evangélica fala dos loucos por Jesus, mas o evangelho não aborda essa temática. Ele fala que “a loucura de Deus é mais sabia que a sabedoria humana” (1 Coríntios 1.25) ou que “Deus usa as coisas loucas pra envergonhar as sábias” (1 Coríntios 1.27). Não que a loucura seja uma coisa boa, ela é insana. O que os referidos textos revelam é o fato de que as manifestações de Deus, consideradas loucas por muitos, são sinais profundos de sabedoria, para além dos saberes deste mundo.
Então, diante da pergunta proposta inicialmente, afirmo com convicção que é impossível uma santidade sem sanidade. Não podemos, em nome de uma pretensa atmosfera espiritual, assumir uma postura desconectada da realidade ou da cultura na qual estamos inseridos. Minha argumentação segue a linha daquilo que o teólogo Karl Barth recordou aos jovens alunos em 1963: “Pegue sua Bíblia e pegue seu jornal. Leia os dois, mas interprete os jornais a partir da Bíblia”. E ainda, aos mesmos alunos, no mesmo dia, ele disse: “Eu sempre oro pelos doentes, pelos pobres, pelos jornalistas, pelas autoridades do Estado e pela igreja – nesta ordem”. (Revista Time, 31/05/63). Nessas palavras de Barth, encontram-se fundamentos importantíssimos para a nossa proposta de santidade com sanidade. O fato de participarmos de um culto com alto nível de espiritualidade sem uma conexão com a realidade cultural ou das vivências sociais caracteriza-se como uma patologia. É preciso negá-la, enfim.
Sou um defensor da santidade, mas não me venham com chorumelas, coisas insignificantes. Quero é a profundidade de uma vida espiritual conectada à realidade social e à vida das pessoas. Santidade sim, com sanidade. Por isso, sou a favor de uma santidade subversiva. Mas esta é outra conversa.

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