Considerações aos Metodistas Brasileiros


Juiz de Fora, Páscoa de 2011.



Aos metodistas brasileiros,

Agora, vos digo: dai de mão a estes homens, deixai-os; porque, se este conselho ou esta obra vem de homens, perecerá; mas se é de Deus, não podereis destruí-los, para que não sejais, porventura, achados lutando com Deus.
Gamaliel – Atos 5. 38-39


Essa circunstância, portanto, não é uma desculpa adequada para não reconhecer a obra de Deus; especialmente se consideramos que sempre aprouve a Deus realizar alguma grande obra sobre a terra, quando mesmo nos tempos mais remotos, ele saiu relativamente do modo comum; seja para excitar a atenção de um grande número de pessoas que, de outra forma, poderiam não nota-lo, seja para separar o orgulhoso e soberbo de coração daqueles de espírito humilde e singelo; os primeiros, conforme ele previu, confiando em sua própria sabedoria, tropeçariam naquela pedra e se quebrariam; ao passo que os últimos, inquirindo com sinceridade, logo reconheceriam que a obra era de Deus.
João Wesley


Prezados irmãos e irmãs,


Ao longo de 18 anos de dedicação exclusiva à Igreja Metodista, passando pela primeira e segunda designação junto às Igrejas Metodistas de Conselheiro Lafaiete – MG e Vila Galvão - SP, tendo por primeira nomeação a Igreja Metodista de Vila Planalto – SBC, seguindo-se as nomeações para as Igrejas Metodistas em Goiabeiras – ES, Central em Belo Horizonte, Benfica em Juiz de Fora, Pastoral do Instituto Metodista Granbery, Jardinópolis, e atualmente Bela Aurora, todas essas seis últimas ligadas à IV Região, sendo extremamente grato a Deus pela oportunidade de servi-lo na dimensão do Reino nestas distintas comunidades de fé, sob a orientação do Espírito Santo, sempre colocando à disposição meus dons e talentos para a equiparação do corpo de Cristo, me apresento aos metodistas brasileiros, na condição de membro da Igreja Metodista, para tecer algumas considerações sobre a dinâmica de acolhimento de irmãos e irmãs metodistas da cidade de Belém do Pará, região Norte do país.

Sei que a situação que envolveu esse acolhimento é inusitada e, talvez, tenha ocasionado alguns constrangimentos para muitas pessoas, mas, por uma razão óbvia, aprendi desde cedo, os caminhos inerentes à mística do ministério pastoral e fui ensinado pelos meus pastores o significado do apoio e acolhimento ao diferente, mesmo o muito diferente. A máxima “Pensar e deixar pensar”, tão fundamental para a dinâmica de uma Igreja conciliar, ou que se pretende conciliar, máxima esta exorcizada por muitos na atualidade, sempre serviu, pelo menos na concepção de muitos metodistas, como um paradigma para a fundamentação relacional, tão cara aos princípios mais basilares do Evangelho.

Aprendi, também, a compreender as pessoas a partir de seus pontos de vistas. Como lembra-nos Leonardo Boff: “Todo ponto de vista é apenas a vista de um ponto”. (A águia e a galinha. Petrópolis: Vozes, 2008). Nessa lógica, sempre parti da premissa que acordos e conciliações são possíveis, mesmo sabendo que essas possibilidades perpassam os caminhos ásperos e sedimentados da discussão. Os beócios preferem o caminho da ditadura e da determinação, muitas vezes traduzida pela metáfora da “visão”.

Aprendi, por fim, a respeitar os meus líderes, mesmo quando não concordava com eles. Sofri, muitas vezes, fazendo coisas que nada tinham a ver comigo. Entretanto, não quero mais fazer ou realizar coisas que não são compatíveis com o que penso em relação ao Evangelho. O abuso de poder, por parte de líderes não pode ser acolhido no coração de quem quer que seja, principalmente das pessoas ligadas ao povo chamado metodista.

O Evangelho me incita a viver outra lógica, marcada por ideais tais como: a. felicidade como resultante da perseguição por causa da justiça; b. ser último para ser primeiro; c. humilhar-se para ser exaltado; d. se tornar como criança ao invés de ser adulto na busca pelo poder; e. amar aos inimigos ao invés de persegui-los; e. perder para ganhar. Acontece que, por uma razão que me é estranha, esses princípios somente são cobrados daqueles que abraçam a fé evangélica e se dedicam voluntariamente aos princípios desta ou daquela denominação, enquanto que os líderes ficam num patamar diferenciado. Para estes, o Evangelho somente serve para os outros. Para mim, é inconcebível a ideia de um(a) pastor(a) ou bispo(a) não pedir perdão, quando de um erro ou palavra mal posta, à um(a) irmão(ã) em Cristo.

Tenho consciência de que na atualidade, líderes, visando a tranquilidade do arraial impõem sua visão e se afirmam diante da obediência dos liderados. Não poucos(as) pastores(as) têm vociferado em seus púlpitos palavras de abuso, determinando uma obediência muda para que os membros da igreja não se tornem feiticeiros, numa grotesca e fundamentalista alusão a 1 Samuel 15.23. Ao contrário disso, sempre busquei o caminho da elegância e da educação, dando minha resposta, tão somente, através da dedicação e do serviço, com os olhos fitos nos princípios da justiça, mesmo quando era derrotado em decisões conciliares ou em qualquer tipo de reunião. A vontade alheia sempre foi por mim respeitada. Aliás, somente consigo compreender a missão na Igreja e a teologia, ou o que se requer dela, na sua forma encarnada, como práxis, diaconia, serviço, conciliações, justiça e Reino. Sempre me esmerei no intuito de ser realmente pastor. De ser um companheiro e amigo nas horas das alegrias e também das dificuldades.

Pastoreio, assim, as ovelhas do rebanho que não é meu, é de Deus. Visito-as e acolho-as em suas possíveis crises existenciais.
Por esses motivos apresentados, nunca me imiscuí de acolher pessoas que se achegavam com o coração aberto para a transformação ou a busca por uma nova vida, uma nova aurora. Inclusive, desde o momento que aceitei o desafio de pastorear a Igreja Metodista de Bela Aurora, tive a oportunidade de acolher irmãos e irmãs de outras localidades da própria cidade de Juiz de Fora. Acolhi-os com amor, entretanto, na contramão de tudo o que aprendi, ouvi de alguns pastores expressões tais como: “Pode levar. Deus tira um e manda dez”, ou então: “Só quero aqui os que estão na visão”. Muitas vezes, tais expressões vinham acompanhadas da frase: “O Bispo deu liberdade pra gente fazer assim”, frases que expressam uma particularidade que nunca considerei e não vou considerar porque é pífia.
Dessa forma acolhi 42 membros oriundos de outras Igrejas Metodistas da cidade de Juiz de Fora e um membro da cidade de São Paulo, que no passado fora pastor metodista. Todos, muito queridos por mim. Hoje, sou grato a Deus pela oportunidade de ter essas pessoas ao meu lado. Toda essa situação fez de Bela Aurora uma Igreja atípica, bastante similar a outras comunidades presentes no Brasil. Inclusive, recentemente ouvi de algumas pessoas, cujos nomes eu não citarei, que a Igreja Metodista de Bela Aurora se tornou uma Igreja de pessoas decepcionadas ou descontentes. Uma Igreja de rebeldes. Palavras que repudio embora reconheça a veracidade da constatação. Repudio porque nesses comentários estão as verdades sem o amor cristão. Mas, por outro lado, reconheço a veracidade porque acolhi ao longo desse tempo pessoas que ficaram tristes por causa dos rumos que seus pastores deram ao kerigma cristão. Infelizmente, essas pessoas foram deslocadas de seus respectivos nichos eclesiásticos por pressão, coação, opressão, abuso religioso e indiferença dos pastores e pastoras. Paro por aqui, pois a lista ficaria elástica demais. Felizmente, estas pessoas não deixaram de ser metodistas. Elas têm sido pastoreadas por mim, até que o Senhor da vida me permita fazê-lo. E faço isso com muito esmero e dedicação, com a plena visualização de minhas particularidades, contradições e deficiências. Tenho aprendido a ser e me revelar como realmente sou, sem medo ou hipocrisia.

Confesso, entretanto, que gostaria que fosse diferente. Eu queria que estas pessoas continuassem perpetuando a alegria de celebrar junto aos(às) seus(suas) antigos(as) amigos(as) nas suas respectivas Igrejas. Esse afastamento provocou lutos outros que ainda estão sendo elaborados. Quero somente lembrar que as causas que levaram esses irmãos ao afastamento são as seguintes:

1. Uso indiscriminado de campanhas financeiras travestidas de campanhas de vitória através da oração;

2. Excesso de pregadores de distintas denominações nos púlpitos de nossas Igrejas;

3. Obrigatoriedade de participação no encontro metodista do pacto ou encontro com Deus, para exercimento de funções junto a Igreja;

4. Aceitação indiscriminada de toda e qualquer proposta ou “visão” dos(as) pastores(as). Sobre este último aspecto, é curioso notar que na atualidade, a discordância dos leigos quanto às ideias e formas dos pastores tem a ver com rebeldia. Os chamados “rebeldes” são encaminhados para a “santa inquisição metodista”. O princípio do sacerdócio universal de todos os crentes foi completamente abolido de muitas igrejas.

Ora, o problema do autoritarismo na Igreja por parte das ordens sacerdotais não é novo e já foi denunciado por Martinho Lutero. Em suas próprias palavras: “Pois daí vem essa detestável tirania dos clérigos com relação aos leigos. Confiam na unção corporal pela qual suas mãos são consagradas e, depois, na tonsura e na veste. Não só creem que são mais que os cristãos leigos, que são ungidos com o Espírito Santo, mas quase os consideram como cachorros indignos de serem enumerados juntamente com eles na Igreja. Por isso, atrevem-se a mandar, exigir, ameaçar, pressionar e espremer em todo o sentido. Resumindo: o sacramento da ordem foi e continua sendo uma maquinação belíssima para consolidar todas as monstruosidades que se cometeram e ainda se cometem na Igreja. Aqui desaparece a fraternidade cristã, aqui os pastores se transformam em lobos, os servos em tiranos, os eclesiásticos em mais que mundanos”. (Do Cativeiro Babilônico da Igreja. In: Martinho Lutero: Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal, 1989, vol. 2, p. 414). Embora os(as) pastores(as) não estejam ligados(as) à ordem numa configuração sacramental, parece que se imbuem desse espírito. Ora, é evidente o fato de que existe um grande hiato eclesiológico de características medievais na Igreja atual. Numa similar linha de raciocínio, John Wesley, que num primeiro momento era extremamente zeloso, fanático e clerical para com a Igreja, após a experiência de Aldersgate, em 1738, percebeu que mais do que razões e convicções, era necessário uma busca pela dimensão soteriológica e pelo acolhimento ao outro, na dimensão do coração aquecido, em outras palavras, um coração cheio de amor e apaixonado pelas pessoas, não mais pela Igreja. Nessa perspectiva, pastores e pastoras são pessoas com funções distintas, que evidenciam no todo de seus respectivos serviços eclesiásticos, tão somente, o amor humilde aos outros. O pastor José Carlos de Souza corrobora: “Se, pelo batismo, todos os cristãos são feitos sacerdotes, não poderiam prevalecer diferenças relativas a status ou dignidade, porquanto é impossível sustentar quaisquer privilégios com base nas Escrituras ou na Igreja Antiga. A única distinção cabível repousa na diversidade de funções necessárias para que a Igreja cumpra a sua missão (cf. Rm 12 e 1 Co 12-14), porém, isso não fundamenta nenhum direito ou prerrogativa especial. A autoridade eclesiástica é serviço, assentado exclusivamente na conveniência humana e prática. A fim de evitar a desordem e o caos, a comunidade de fé escolhe aqueles que hão de exercer, em seu nome, os ofícios que, a rigor, pertencem a todos. A ordenação é apenas o rito – jamais o sacramento – pelo qual a congregação reconhece publicamente aqueles que são chamados para o cuidado pastoral e, sobretudo, para a pregação da Palavra. Contudo, a qualquer tempo, esse encargo pode ser requerido de volta, se a comunidade assim discernir”. (SOUZA, José Carlos. Leiga, Ministerial e Ecumênica. SBC: EDITEO, 2009, p. 96). Assim, somente podemos conceber o ministério pastoral na Igreja Metodista como um espelho da comunidade. As pessoas precisam se sentir representadas pelo(a) seu (sua) pastor(a). Nessa mesma linha de raciocínio, acho que não dá mais para fecharmos os olhos a essa constatação que pode alterar os rumos eclesiológicos. Torna-se imperativo a sensibilidade. Para mim, o problema eclesiológico (estrutura, episcopado, poder, governo, pastores e leigos) é o grande nó que o próximo Concílio Geral terá que desatar, se não se ater aos joguinhos inerentes às eleições dos bispos e bispas!?!?.

A propósito, tive a oportunidade de participar do último Concílio Geral e vi, ouvi, senti e, infelizmente, participei sem comungar de um dos mais atrozes momentos da história da igreja metodista em terras brasileiras. Fiquei pasmo em descobrir ali os “reais” interesses que moviam as orações e as celebrações. Eu, inclusive, tinha conversado com um bispo informando-lhe que os burburinhos pré-concílio eram terríveis e que a Igreja seria atropelada por decisões unilaterais. Sugeri até mesmo o cancelamento do Concílio, o que não foi possível. As eleições dos bispos e da bispa foram momentos de desrespeito, infâmia, discórdias, maledicência, jogo sujo... Ouvi de um bispo, em particular, o desabafo indignado em relação a pastores que, pela frente, batiam as mãos nas costas dele e por trás, queriam a sua degola.

Sempre tive posições em relação à estrutura da Igreja Metodista. Partilhei muitas com colegas pastores e pastoras. Sinalizava e clamava por mudanças, mas contava com o fato de que as coisas fossem feitas ao meio-dia e não à meia-noite. Quando percebi, junto a outros colegas, que as questões estavam tendo uma visão unilateral marcada pela injustiça e a comentários repugnantes, busquei a oposição. Decorreu disso uma série de preconceitos em relação a minha pessoa e a difamação por intermédio de várias falácias. Por exemplo, pelo fato de ter participado de uma visita a um irmão querido na cidade de Belisário, num encontro que ficou conhecido como Encontro de Belisário, recebi vários telefonemas de amigos me perguntando sobre a campanha para bispo. Espalharam que eu havia promovido o encontro para me lançar a bispo. Só se eu fosse muito burro. Se eu quisesse assim fazê-lo, iria certamente para um grande centro. Não sou de esconder as coisas. E por causa dessa falácia, meu nome figurou em uma lista nos corredores do último Concílio Regional da Igreja Metodista da IV Região, em 2009, como nome não elegível para a composição da delegação da IV Região. Por um acaso dos céus, documentos e e-mail´s caíram em minhas mãos atestando as falcatruas que ocorreram, principalmente na sala destinada à oração. Depois de ter recebido os referidos documentos, conversei com uma pessoa que participou diretamente dos fatos e ela me confirmou o acontecido. Fiquei boquiaberto.

Resolvi, então, reafirmar minha posição perante a Igreja Metodista. Posição herdada dos anos de estudos teológicos e da convivência com líderes com certos princípios éticos. Em minha concepção, existem dois tipos de homens: os que falam e os que fazem. Quero figurar entre os segundos. Chega de palavras. Quero abraçar ações que dignifiquem o ser humano.

Por estas e outras convicções de fórum estritamente pastoral, resolvi acolher os 17 irmãos e irmãs de Belém do Pará e arrola-los como membros em nossa Igreja Metodista de Bela Aurora. Informo que, além desses, ainda serão acolhidos diversos adolescentes e crianças, que ainda não professaram a fé. A abertura desse processo de acolhida se deu justamente pelo precedente que abri ao acolher o ex-pastor da Igreja Metodista que, como disse, mora em São Paulo. São todos sacerdotes. Seguiu-se, assim, a lógica de um antigo adágio mineiro: “Porteira por onde passa um boi, passa uma boiada”. Para ser mais elegante: “Por onde passa uma ovelha, passa um rebanho”, formando um novo aprisco.

Tenho a nítida clareza de que agi, insisto, num foro estritamente pastoral, numa brecha de lei canônica e numa ampla porta aberta, marcada pela (i) lógica do Evangelho de Jesus. Não fiz coisa alguma pensando em denegrir ou afrontar a imagem de quem quer que seja. Entretanto, sei que acabei apontando e denunciando o problema da autoridade, que em minha compreensão, é o calcanhar de Aquiles da Igreja atual. Ora, autoridade é fundamental para a dinâmica da práxis missionária da Igreja, mas é preciso considerar que uma autoridade somente pode ser exercida em três variáveis: pelo caminho da legalidade (que se caracteriza pela imposição da lei ou da força de coerção); pelo caminho da legitimidade (que ocorre quando uma comunidade percebe o carisma de seu líder ou pessoa responsável e legitima sua autoridade); e pelo caminho ideal, numa espécie de dialética entre legalidade e legitimidade, desde que a legitimidade seja a tônica do discurso, porque marcada pela conquista e serviço. Assim, acredito piamente que autoridade, com princípios bíblicos, é conquistada pelos caminhos relacionais na dialética de uma legalidade afirmada, posteriormente legitimada na vivência com a comunidade.

Nesse fórum pastoral, não creio ter ferido a ética. Para os que acham que a feri, pergunto: que ética? Será que alguém poderia legal e legitimamente reclamar pela ética neste momento tão complexo que vive a Igreja? Confesso que, em todo este processo, não pensei em condicionar ou ferir a ética. Ao contrário, fiz o que apontou o meu coração. Segui minhas convicções pessoais, seguindo um velho conselho de Max Weber. Aboli, por um lapso de tempo a minha ética de responsabilidade e pelo afã da ética de convicção, acolhi estes(as) irmãos(ãs) pensando no critério evangélico. Resolvi seguir um princípio apreendido nas sagradas letras que afirma: “Mas, como fomos aprovados de Deus para que o evangelho nos fosse confiado, assim falamos, não como para agradar aos homens, mas a Deus, que prova os nossos corações”. 1 Tessalonicenses 2.4. Pensei cá com os meus botões que o evangelho atingiria maior tonalidade mediante o grandíssimo abraço aos irmãos de Belém.

Decorreu desse abraço a formulação de uma queixa contra a minha pessoa por parte da liderança da REMA e da igreja central de Belém. A queixa questiona minha atitude, principalmente pelo fato dos(as) irmãos(ãs), que foram acolhidos por mim, estarem em disciplina. Ora, que disciplina? A que vem arbitrariamente do púlpito? A que vem como abuso do poder? Quando percebo que alguém está se desviando dos princípios da igreja ou mesmo da fé evangélica, procuro essa pessoa, vou a casa delas. Desejo ouvi-las e conciliá-las. Como se pode estabelecer disciplina eclesiástica para membros na Igreja Metodista sem os percalços canônicos? Expliquem-me, por favor!

Informo também que nos primeiros contatos com estes(as) irmãos(ãs) acolhidos(as), ficou claro para mim a perspectiva de que eles(as) não queriam ir para Igrejas Batistas ou Igrejas Presbiterianas, entre outras, mas queriam continuar membros da Igreja Metodista. Assim, assumi o acolhimento pensando em coisas estranhas que acho, não fazem mais parte do nosso convívio eclesiástico, tais como, por exemplo: unidade, conexidade, liberdade de espírito, pastoreio, entre outras.

Informo aos irmãos que trabalhei tão somente para resguardar a unidade da Igreja. Eu sei que às vésperas de um Concílio Geral, essa minha ação pastoral pode parecer ação politica para evidenciação de minha pessoa. Tenho o coração no altar e todos os mais próximos sabem muito bem que as decisões tomadas se deram por uma estrita devoção ao Evangelho.

Na prática, todas essas ações estão fazendo surgir um ponto missionário em Belém do Pará. Um meu amigo me disse que meu erro foi declarar que se tratava de um ponto missionário. Na concepção dele, se eu tivesse dito que era uma “célula”, não haveria problemas. Eu até estou pensando em abrir “células” em Belo Horizonte, em Vitória e onde estiverem metodistas decepcionados com os rumos da Igreja. Aliás, sobre este aspecto acho que vale a pena perguntar sobre que igreja que o colégio episcopal quer? Acho que o colégio deveria escrever uma carta pastoral dizendo: “queremos que os metodistas brasileiros sejam assim! Quem não concordar, sai fora”. Isso tem sido dito. Acho, sinceramente, que deveria ser escrito e posto no maravilhoso altar das cartas pastorais do colégio para a igreja.

Então, a minha ação de acolhimento, tão somente isso, não é uma ação esporádica com tonalidade puramente teórica. Como já evidenciei, o Evangelho para mim é Evangelho encarnado e, como tal, precisa ser prático seguindo a lógica do serviço. Por isso, tenho estado com o grupo mensalmente. Celebramos a Ceia do Senhor e nos apoiamos mutuamente. Pergunto-me: por que essas pessoas foram excluídas? Por que tinham que aceitar a imposição de uma visão pastoral? Por que as decisões conciliares não foram respeitadas? Por que não se pôde sentar em uma mesa para saborear uma deliciosa maniçoba ou o pato no tucupi e buscar amizades?
Mesmo diante dessas questões de ordem prática, eu estou sendo questionado em minha ação de acolhimento. Eu disse na primeira reunião da comissão de disciplina que se eu tivesse adulterado com mulheres da igreja local, ou dado um calote em estabelecimentos da cidade, ou ainda, se tivesse tido uma vida irresponsável em relação às finanças e organização da minha igreja, então eu diria estar arrependido, choraria, pediria perdão, receberia uma exortação, uma disciplina de três meses, e tudo voltaria “tudo como dantes no quartel d’Abrantes”.

Diante da encruzilhada em que resolvi me envolver, marcada pela dicotomia entre lei e pessoas, preferi as pessoas, preferi estar ao lado dos mais enfraquecidos. Se os sentimentos dessas pessoas fossem ao menos ouvido, certamente nada disso teria acontecido. Ora, eu não criei esta situação, somente entrei nela para, quem sabe, ajudar na resolução.

Prezados(as) irmãos(ãs), teria muito a escrever ou narrar, mas sei que os(as) senhores(as) têm mais a fazer. Quero somente finalizar dizendo que não envolvi CLAM, tampouco Concílio nessa situação. Somente conversei com os membros da Igreja e ouvi seus sentimentos. Como a Igreja possui pessoas que também foram acolhidas de forma similar, o apoio foi irrestrito e, creio, unânime. Então, a decisão foi de foro estritamente pastoral, um ato de governo pastoral. Não envolvi os membros através dos mecanismos legais que estruturam a Igreja. Assim, a responsabilidade é tão somente pastoral, embora legitimamente apoiada pelos irmãos e irmãs de Bela Aurora.

Concluo, assim, esse meu breve relato, solicitando aos(às) meus(minhas) irmãos(ãs) metodistas que se manifestem contra arbitrariedades, que denunciem os abusos de poder, que reclamem pelo genuíno Evangelho de Jesus Cristo, que busquem a justiça, que digam não ao “papismo” que afronta a simplicidade do Reino que é sempre uma dimensão modesta, de pequenas ações. Ora, quem faz a Igreja é o povo, não os(as) pastores(as), os(a) bispos(a); quem dá dízimo para a manutenção da Igreja são as pessoas de coração sincero que amam a Igreja. A Igreja precisa ser ouvida. Curioso vir à minha mente uma emblemática passagem dos Evangelhos em que o Mestre de Nazaré expressa: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou til jamais passará da Lei, ate que tudo se cumpra. Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no reino dos céus. Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus”. Mateus 5. 17-20.
No amor de Cristo, Senhor da Vida,

Moisés Abdon Coppe
Membro e pastor na Igreja Metodista de Bela Aurora.

Comentários

Angela disse…
Pastor Moisés

Li o seu artigo e quero dar-lhe os parabéns pela sua coragem e determinação. Expôs com clareza e respeito a sua ideia e, como metodista de vários anos, concordo plenamente com tudo o que escreveu.Quem dera que todos os pastores pensassem como o senhor e que todos os membros apoiassem e também se dispusessem a ajudar. Vamos orar pelo senhor. Um abraço.

Ângela Márcia Ayupe

São João Nepomuceno
Welington Silva disse…
Caro Pr. Moisés, parabéns pela firmeza demonstrada ao apontar os descaminhos da Igreja Metodista do Brasil. Penso que a igreja precisa de outras vozes como a sua, que não se calam quando se trata da preservação da genuína fé evangélica. Mantenha-se firme naquilo que o Senhor o chamou, e conte com o meu apoio e oração. Abraço.

Welington (ex-metodista)

Belo Horizonte
Livia Costa disse…
Oi querido pastor Moisés. Saudades mesmo distante em anos e oceano, uma vez que me considero sua ovelha mesmo depois de tantos anos que nós dois saímos da Central de BH, e que estou morando no velho mundo já a dois anos. Lendo o seu relato relembro dos bons anos de seu pastorado, e de como suas palavras são tão verdadeiras como os seus atos. Espero em Deus que essas ações feitas com o coração e não com a vaidade venham a dar frutos bons, de amor, alegria e união, e não de raiva, tristeza e separação. A Igreja Metodista precisa de pastores como o senhor que vive o Evagelho. Saudades. Abraço. Livia
Pedro Calixto disse…
Pastor Moisés, concordo e ratifico todas suas palavras... A igreja metodista e protestante no Brasil precisa de homens com você. Um grande abraço fraterno.

Pedro Calixto
Marcia disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Marcia disse…
Marcia disse...
Olá pr.Moisés graça páz de JESUS em seu coração, com certeza apoio sua postura está de parabéns,O Espirito Santo esta com você nesta empreitada admirável, com DEUS não se brinca e nem se zomba...Temos de seguir apenas a palavra de DEUS por isto eu quiz ser uma Metodista por seguir este evangelho genuino de JESUS,foi nesta denominação que criei minhas filhas aprendendo a santa palavra de DEUS onde permanecemos para glória de JESUS...Graças a DEUS tudo que aprendemos nos deu segurança para seguir em frente tendo experiências lindas de cura e libertação com DEUS ao longo de 25 anos de caminhada com JESUS nesta igreja... por isto com certeza vamos orar por você te apoiar para manter-se firme nesta sua postura amém, DEUS o abêncoa abraços fraternos.

Márcia Oliveira Rigolon
São João Nepomuceno
Igreja Metodista Central
walkimar disse…
Caríssimo Moisés, gosto de seus textos. Como já disse, quero conhecê-lo pessoalmente. Sou grato pela atenção a membros de minha igreja que se internaram Em JF.
Mas não posso concordar com o colega. Temos que observar alguns pontos:
1. Antes de abrir algum trabalho preciso entrar em acordo com pastores, sds e bispos.
2. Conhecedor da denominação como o colega pastor, não poderia ter agiro assim
3. Somos uma igreja conciliar, episcopal, que trabalha em dons e ministérios.
4. O canal de comunicação precisa estar sempre aberto e por fim
5. ESte processo não pode ser colocado assim abertamente na internet. O processo disciplinar exige confidencia, mesmo porque não é deliberativo, mas para confirmar ou não, acertos e erros.
Lamento que tudo isto esteja ocorrendo, mas a região agiu corretamente no meu modo de ver.
Com apreço
Walkimar
Léo disse…
Olá meu grande amigo Pr. Moisés. Conheço o teu amor pela pela Igreja Metodista desde a sua juventude pela oportunidade que tive que conviver com você nos intercâmbios das nossas igrejas e outros encontros realizados. Sempre lutei pela verdade e a justiça que são princípios cristãos. Por isso venho dar a minha palavra de apoio e confiança às declarações publicadas em seu blog.
Sinto-me triste por ver gente honesta como você ser desrespeitada por querer realizar a missão do Senhor Jesus. Para mim, acho um absurdo tanto problemas e desgastes causados em alguém que quiz cuidar das feridas das ovelhas espalhadas pelo nosso vasto Brasil Metodista. As vezes me pergunto se uma nova "doutrina" será adotada pela liderança da nossa igreja como uma que ouvi de uma certa denominação que diz assim: "A visão funciona para quem funciona na visão" Será muito difícil a convivência numa igreja assim. Que o Senhor nos fortaleça para trabalharmos pela unidade do corpo de Cristo.
Deus te abençoe!!!

Léo Ramiro

São João Nepomuceno - MG.
Ana Guilhermina disse…
Pastor, é, são poucos a quem podemos nos dirigir assim. Lá se vão 3 anos que estamos "fora" da IM. Procuramos uma comunidade, mas ainda não conseguimos nos encontrar. Se quiser vir pra BH, nossa casa está aberta pra receber essa família amada. Também oramos pra que o Senhor restitua a sanidade ao povo chamado metodista e, assim, ele retorne à cruz e ao Amor.
Grande abraço,
Heleno e Ana
Lilian disse…
Oi amigo e pastor Moisés,

Obrigada por sua coragem de ser voz profética...voz que denuncia abusos, injustiça e valores contrarios a Palavra de Deus.Louvo a Deus por sua vida, por sua conduta pastoral porque sei que você vive o que prega ... e sua motivação é o amor a Deus -que te chamou e o amor as pessoas a quem Deus te enviou.Mais uma vez quero lhe expressar meu apoio, admiração, respeito a você.Abraço forte,Lilian
mariayupe disse…
Caro Pastor Moisés,

Fico muito feliz em saber que ainda existem homens que zelam pela obra de Deus e pelos princípios éticos e morais da Igreja. Sou uma jovem metodista, nascida e criada na igreja e, ultimamente, tenho me entristecido e ficado realmente preocupada com o futuro da Igreja Metodista. Práticas e “estilos” de culto que antes eram criticados, agora estão sendo aceitos pela igreja. Não pela minha, mas por outras que já visitei. E fico ainda mais triste por ver minha igreja criticada, tachada de “tradicional” e não avivada por justamente não aderir a esses costumes. Sinceramente, em mais de 20 anos de Escola Dominical nunca aprendi que avivamento é sinônimo de barulho, gritos, rodopios e outras coisas mais que não valem a pena serem comentadas. Será que uma igreja sobreviveria mais de 100 anos se não houvesse ali a presença do Espírito Santo? É natural descartar as experiências vividas por servos de Deus há décadas atrás e achar que devemos ter outra “visão”? Acho que muitos metodistas deveriam refletir sobre essas questões e buscar sabedoria de Deus antes de criticar igrejas e pastores que trabalham com amor e seriedade.
Agradeço a Deus pelo seu ministério e vou orar pelo senhor. Um abraço.

Mariana Ayupe
Igreja Metodista Central - SJN
maria angela disse…
Pastor Moisés
Faço parte da Igreja Metodista , há mais de 100
anos plantada na cidade de São João Nepomuceno.Nossa pequena-GRANDE,comunidade de fé passou por várias tempestades, mas nunca esmoreceu, pois "sobre as águas O SENHOR também É REI", portanto , sempre descansamos NELE
Será que uma Igreja que não estivesse VIVA estaria de pé durante mais de um século?
Será que a nossa "visão" está destorcida?
Não creio, e, por isso, estendo a minha mão ao senhor nos dois sentidos:para cumprimentá-lo e para ajudá-lo no que se fizer necessário para manter viva a chama que nos conduz no caminho do Senhor.
Agradeço a Deus por o senhor existir.
Abraço,
Maria Angela Ayupe
Dalva disse…
Pastor Moisés:
É hora de questionar "Pedro, tu me amas?" não três, mas trinta, trezentas vezes três. O senhor, pastor, está respondendo afirmativamente, está apascentando as ovelhas do Mestre a despeito do autoritarismo e covardia daqueles que se julgam donos do rebanho.Sou e somos TESTEMUNHAS. Sabemos em quem temos crido.Não desejo que permaneçam na ilusão do falso poderio, mesmo entoando que todo joelho se dobrará. Acontece que se dobrará mesmo! Quem segue o Mestre jamais será a parte mais fraca.Cristo venceu a morte, ALELUIA!


Dalva, ovelha apascentada pelo Pastor Moisés e protegida no aprisco do Reino de Deus.
Pastor querido,

Fico sem palavras, para tecer algum comentário, ainda preciso reler algumas vezes e digerir. A única coisa de que tnho certeza é que concordo com cada letra.Que Deus continue te abençoando e te usando dessa forma... virei seguidora aqui!
Abraços
Luciana disse…
Moisés

Continue a ser um fiel bereano ,que você continue ser bênção em luta contra esses ventos de doutrina e etc que assolam a Igreja Metodista atualmente .
Confie :
Se Deus é por nós,quem será contra nós ?
Medite em Romanos 8 : 31 a 39

Um abraço,

Luciana G S Valente

Belo Horizonte
Nana Camarão disse…
Pastor:
E aí o tempo foi passando, as pessoas falando com muito mais receio do que com clareza, e está aí...Minha pergunta continua: não quero deixar de ser Metodista, mas faço o que? Por favor só não me responda com o "vamos orar", porque isso é claro em minha vida. Viver sem oração não dá. Mas viver sem AÇÃO para mim, é TOTALMENTE impossível.
Estou honestamente, pedindo a D'us que lhe dê maiores e melhores coberturas.
Obrigada por ser exatamente um PASTOR do jeito que Ele seria para conosco.
Nana.

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