Graça Responsável

Ontem, dia do aniversário de 493 anos da Reforma Protestante, que ocorreu iconicamente em 31 de outubro de 1517, em Wittenberg, na Alemanha, resolvi escrever um pouco sobre um dos seus pilares: a graça de Deus.

Sola Gratia – Só a Graça – era uma das expressões caras ao movimento liderado por Martinho Lutero. Essa expressão deslocava a mediação da Cristandade – termo que designa uma estrutura ao mesmo tempo política e eclesiástica – como única mediadora da graça de Deus para a possibilidade de acesso à mesma graça por todas as pessoas.

No século XVI, a Igreja, com sua famosa máxima Extra Eclesiam Nulla Salus, que quer dizer Fora da Igreja não há Salvação, se apresentava diante do mundo como a única mediadora da graça de Deus. Isso quer dizer que se as pessoas quisessem alcançar a salvação, teriam, necessariamente, que pedir passagem pelos sacramentos controlados pela Igreja e somente por ela. Qualquer atitude diferente dessa levava as pessoas à excomunhão e em casos mais complexos, à chamada santa inquisição.

Nesse quadro, Lutero desfralda a perspectiva de que a Graça de Deus não pode ser controlada por qualquer estrutura em vigência, mesmo por aquela que ab-roga para si o direito de ser mediadora entre Deus e os homens. Dessa forma, a expressão Sola Gratia se tornou emblemática para o movimento da Reforma por libertar o ser humano da relação estrutural para a relacional, esta inserida na dinâmica da vida.

Entretanto, essa guinada no pensamento luterano levou as pessoas a pensarem a idéia de uma salvação que se dá por pura graça. Para muitos cristãos, não era preciso fazer coisa alguma para se alcançar a salvação, pois esta é um dom gratuito, dado por Deus pela sua Graça. Essa atitude, por parte de muitos, levou o pastor e teólogo Dietrich Bonhoeffer, luterano, a alertar em seu livro Discipulado sobre a perspectiva daquilo que ele apelidou como Graça Barata. Essa expressão caracteriza-se no relato de Bonhoeffer como sendo a tentativa do humano em não se comprometer com a vida, de forma mais enfática com o próximo, pois nada mais é preciso fazer para se alcançar a plenitude da salvação.

Anteriormente, no século XVIII, no deslindar da teologia pastoral do caminho, proposta por John Wesley, a preocupação com a resposta do ser humano diante de Deus havia provocado diversas reflexões. Wesley tinha na Graça a força maior de sua atuação, tanto isso é verdade que muitos teólogos consideram a teologia de Wesley como uma teologia da Graça. Entretanto, mais do que isso, a teologia da Graça em Wesley perpassa a lógica de uma resposta responsável do ser humano diante de Deus. A Graça para Wesley é uma Graça responsável no sentido de evidenciar a ação de Deus com a obra humana, no que podemos conceber como sinergismo. Sinergismo quer dizer ação conjunta, e se estabelece no pensamento wesleyano de acordo com a lógica de Agostinho, que assim se expressa: “Aquele que nos criou sem nós, não nos salvará sem nós”. Deus requer nossa participação em sua obra salvífica, pois Ele, que começou boa obra em nós, há de completá-la até o Dia de Cristo Jesus com a nossa participação. Esse é um critério de corresponsabilidade. Segundo o professor Helmut Renders, da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista do Brasil, em seu livro Andar como Cristo Andou, “esta corresponsabilidade é desenvolvida na caminhada. O ser humano não somente deve, mas, em primeiro lugar, pode amadurecer na caminhada. Para isto, ele precisa se dar conta da sua própria complexidade, conhecer seus abismos e seu potencial. A presença da graça divina no mundo quer transformar “crianças na fé” em “homens e mulheres de fé”. Por isso Wesley enfatiza a perfeição cristã como elemento-chave da sua teologia prática. Da relacionalidade e corresponsabilidade do ser humano para com Deus, nasce a visão para transformações reais. Os horizontes da esperança alimentam-se desta convicção. A relação sinergética com Deus fortalece e transforma a pessoa” (pág. 337).

Portanto, ao rememorarmos a expressão Sola Gratia, tão cara ao movimento da Reforma, que todos tenhamos no coração a convicção de que participamos do propósito de Deus em querer salvar o mundo. E assim, anunciemos com convicção nossa responsabilidade diante de Deus e do mundo. Assim como Deus é gracioso conosco, que sejamos graciosos com as pessoas. Seja sempre esse o nosso alvo

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