Metodistas na barriga do grande peixe


“Vou sair da igreja onde congrego”; “Igreja X dividiu-se”; “tantos membros deixaram a igreja Y”; etc...
Divisões e evasões sempre foram para mim dores agudas. Já chorei, aconselhei, orei, preguei a fim de evitá-las dentro da denominação em que pastoreio e até fora dela.
Sempre fiz o esforço de ouvir os dissidentes e os remanescentes.
Na maoiria das vezes os motivos são os mesmos citados pelo apóstolo Paulo em 1 Co: ciúmes, invejas, brigas por espaços de “destaque” dentro da congregação – desde a ornamentação do altar, passando pela ministração do louvor até a administração financeira. Coisa de criança mesmo.
Sempre ouvi dos que ficaram – membros, pastores, superintendentes distritais e até bispos – aquela conclusão final bem “consoladora”: “saíram porque não eram metodistas de verdade”.
De dissidentes, independentemente da denominação, já vi até a tentativa da construção de uma “teologia da divisão”, baseada na separação entre Paulo e Barnabé em Atos dos Apóstolos.
O fato é que muitos podem ser os motivos justos e injustos de divisões e evasões.
Muitos metodistas têm permanecido na denominação por amor a Deus, ao Evangelho de Cristo e amor às pessoas. A unidade interna está, há algum tempo, em muitas igrejas locais, comprometida em termos de práticas dos sacramentos, ensino doutrinário, liturgia, política de nomeação pastoral, etc... Assim, podemos nos considerar artistas, porque conseguimos manter uma unidade dentro de uma diversidade que faria inveja a João Wesley!
O problema é quando as pessoas sentem que lhes está sendo tirado aquilo que as tem feito permanecer na igreja metodista, e que não é a história do metodismo, não é a doutrina, não é o tipo de governo, não são os documentos episcopais, e outras virtudes que a denominação considera ter, mas o Evangelho de Cristo Jesus.
Sim, o velho e simples Evangelho não é mais pregado, estudado, celebrado, orado, desejado, necessitado. Foi substuído por outro evangelho, que não é Evangelho, porque é destituído da Graça de Deus.
Esses e essas metodistas, privados do Evangelho na própria congregação, é que estão na “barriga do grande peixe”. Ou seja, estão espiritualmente deslocados onde congregam, mas ainda não foram para outro “lugar” ou “povo”.
As igrejas locais deveriam ser como a arca de Noé: feita segundo a instrução de Deus por aquele que achou graça diante do Senhor, que era justo e íntegro; possibilidade de sobrevivência no meio do caos; sinal da salvação que recria a humanidade.
Mas muitas igrejas locais preferem ser como o navio que ruma para Társis, “para longe da presença do Senhor” (Jn 1.3). Társis é uma grande aventura, fantasia, alienação. O navio está cheio de pagãos, cada qual com o deus que mais lhe agrada. Neste navio, a pessoa de fé em Deus é fugitiva desobediente. A presença dele/a traz sérios problemas para a “segurança”, “estabilidade” e “paz” dos passageiros. Lançá-la ao mar é o remédio! Bom para ela, porque, apesar de frustrar sua viagem, tira-a do caminho da alienação.
Eugene Peterson chama o navio de “barco religioso”. Dirigindo-se a pastores, escreve: “A maior parte do que passa por religião nada tem a ver com o Evangelho. A maior parte do que passa por religião é idolatria. A maior parte do que passa por religião é autopromoção. É urgente e imperioso que os pastores façam distinção entre a religião cultural e o Evangelho cristão. No meio de uma grande tempestade no mar, Jonas aprendeu a diferença”. (À sombra da planta imprevisível, p 39.)
Estou na “barriga do grande peixe” há algum tempo. Sou solidário a todos que “foram lançados”, que “se lançaram” ou estão “se lançando” ao mar e vindo direto pra cá. Sim, porque Deus, em sua misericórdia, não nos deixa a mercer de ventos e ondas.
Sejam bem-vindos! Aqui, na “barriga do grande peixe”(Jn 2.1-9), é o início da nossa salvação!
Este não é o “lugar” onde você deseja estar, mas é necessário devido aos acontecimentos anteriores.
Este “lugar” é de oração. Oração em grito e angústia, mas oração ouvida por Deus.
Este “lugar” leva você para “viagem” ao que é profundo, desconhecido, até se encontrar lançado diante Daquele que tudo vê, tudo conhece, sem saber se vai sair vivo/a dali.
Este “lugar” é próprio para você “morrer” e experimentar Deus “subir da sepultura” a sua vida.
Neste “lugar” você fará a distinção entre Deus e idolatria.
Neste “lugar” você vai louvar sem que ninguém veja seus gestos, ouça sua voz, senão o próprio Deus: “Ao Senhor pertence a salvação!”
Quanto tempo você vai passar na “barriga do grande peixe”? O tempo não importa. O que importa é Deus! Tudo é com Ele.


Maurício Ramaldes
São Paulo, 2/2/2009.

Comentários

walkimar disse…
PARABÉNS PELO BELO TEXTO. METODISTAS NA BARRIGA DO GRANDE PEIXE.NÃO SÓ METODISTAS, MAS EVANGÉLICOS DE UM MODO GERAL.
EMILE DURKHEIM JÁ ASSILAVA QUE ENTRE OS PROTESTANES O NÚMERO DE SUICIDAS ERA MAIOR DO QUE CATÓLICOS E JUDEUS.SEGUNDO DURKHEIM O GRAU DE COESÃO ENTRE NÓS É MENOR.CREDITAVA ISSO A VISÃO DO SACERDÓCIO UNIVERSAL DO CRENTE, À LIVRE INTERPRETAÇÃO.
SOMOS TENTADOS A SER INDIVIDUALISTAS. JÁ QUE POSSO INTERPRETAR, PORQUE NÃO VIVER SEGUNDO ESSA INTERPRETAÇÃO. POR QUE PRECISO ESTAR ONDE NÃO CONCORDO, SE POSSO ABRIR OU PARTIR PARA OUTRA IGREJA.
COM ISSO O REINO SOFRE.
TENHO PENSADO QUE SOMOS INDIVIDUALISTAS SEMPRE QUE POSSÍVEL, E GREGÁRIOS SEMPRE QUE NECESSÁRIO. QUANDO GANHO ALGUMA COISA, FALO EM COMUNIDADE, CORPO, FAMILIA. QUANDO TENHO QUE SACRIFICAR:FARINHA POUCA, MEU PIRÃO PRIMEIRO.
TEMOS UM PROBLEMA DE ORIGEM, ENQUANTO PROTESTANTES. PRECISAMOS CORRIGIR ISSO O MAIS RAPIDO POSSÍVEL.NÃO SE TRATA DE TAREFA FÁCIL. MUITA ORAÇÃO, TRABALHO, LEMBRANDO QUE EM CRISTO SOMOS UM.O PRÓPRIO JESUS OROU PARA QUE FOSSEMOS UM. O MUNDO VAI CRER APARTIR DA NOSSA UNIDADE(JOÃO 17.21).
QUE DEUS NOS AJUDE!
WALKIMAR GOMES

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